Nunca vi tanta coisa acontecer

Dez dias depois de iniciadas as buscas, os relatos dos sobreviventes ainda emocionam. São adultos e crianças que atribuem a um milagre ter escapado da morte. Aos poucos, muitos tentam retomar o cotidiano perdido pelo desastre do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho.

O produtor rural Ronaldo Gomes de Oliveira, de 41 anos, estava no campo com a mulher, um funcionário e um dos filhos, quando a barragem se rompeu. Segundo ele, foi “avisado” por um barulho ensurdecedor de vento e uma poeira que tomou conta do ar. Foi o tempo para todos correrem até o alto de um morro na tentativa de escapar.

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O produtor rural Ronaldo Gomes e o filho Ronan contam como escaparam da onda de lama de rejeitos em Brumadinho (Foto: Rafael Calado/TV Brasil)

“Foi uma coisa muito impressionante, uma coisa que a gente não imaginava nunca viver na vida, uma coisa muito feia. A gente não sabia de onde estava vindo”, disse. “Eu ouvi um vento, que fazia assim ‘vuuuu’, levando tudo”, acrescentou. “Nunca vi tanta coisa acontecer em tão pouco tempo.”

Ronaldo, porém, não sabia que o filho Ronan Otávio, de 14 anos, estava nadando no riacho próximo à barragem no momento do rompimento. O estudante conseguiu escapar, buscando abrigo na área mais seca e próxima do riacho. Ficou mais de uma hora nadando.

Exausto, Ronan Gomes parou na área seca e desmaiou. Foi encontrado pelo irmão que o carregou por cerca de uma hora e meia até encontrar ajuda. O adolescente ficou internado na UTI em observação porque teve muitos ferimentos, inclusive nos olhos. Após a tragédia, o estudante se emociona e chora com as lembranças. Ele contou que mesmo cansado e sem forças, caminhou pela mata fechada, pisou em espinhos e teve de escapar de aranhas.