O nome dele é Alcolumbre

Com apoio de Onix, senador do DEM do Amapá atropela Renan e assume presidência do Senado

Com o mote da “renovação”, o jovem senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), de 41 anos, foi eleito ontem presidente do Senado com 42 votos, um a mais que o total necessário para vencer no primeiro turno. Na longa e confusa sessão preparatória que elegeu Alcolumbre, houve de tudo, inclusive votação anulada e a renúncia do seu principal oponente, o veterano senador Renan Calheiros (MDB-AL), que concorria ao cargo pela quarta vez.

“O Davi não é o Davi, ele é o Golias”, disse Renan, no discurso em que anunciou a renúncia, quando o processo de votação já estava em andamento. A decisão de Renan veio logo após Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente da República, declarar abertamente o seu voto em Alcolumbre, cuja candidatura foi articulada pelo ministro da Casa Civil. Onix Lorenzoni, que também é do DEM.

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Ao fim da longa batalha, Davi Alcolumbre comemora a vitória com colegas, entre eles, Randolfe Rodrigues, Tasso Jereissatti e Antonio Anastasia (Foto: Dida Sampaio/AE)

“Onde é que nós estamos? O PSDB anunciou agora que estava abrindo o voto para retirar, contra decisão do Supremo, qualquer possibilidade de termos os votos de José Serra (PSDB-SP) e de Mara Gabrilli (PSDB-SP). O Flávio Bolsonaro, diferentemente do que fez na votação anterior, abriu o voto, abriu o voto”, afirmou Renan.

Na madrugada de ontem, após a tumultuada sessão de sexta-feira, em que os senadores anti-Renan postulavam a votação aberta e em dois turnos, com sessão presidida por Alcolumbre, o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), emitiu parecer pela votação fechada e sob a presidência do senador mais antigo da legislatura anterior. No entender de Renan, os senadores contrariaram a decisão do Supremo, ao declarar abertamente o voto e constrangeram os colegas a também abrir o voto.

“Eu retiro a minha candidatura. Eu não sou o Jean Wyllys. Eu não vou renunciar ao meu mandato”, completou, referindo-se ao deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, que renunciou ao cargo alegando temor por uma suposta ligação da família Bolsonaro com acusados de pertencerem a milícias.

Após o discurso, o senador deixou o plenário, sem votar, e foi seguido pelos colegas Jader Barbalho (MDB-PA) e Eduardo Braga (MDB-AM). À imprensa, o senador alagoano disse que o processo eleitoral, iniciado na sexta-feira e judicializado, “escancarou que eles estão passando sobre o Congresso Nacional com peso enorme. A democracia não aguenta isso”. Renan se referia ao fato de desde o dia anterior Alcolumbre ter assumido interinamente a presidência da Mesa, mesmo sendo candidato. “Ele é o Golias. Davi sou eu. (Ele) atropela o Congresso. O próximo passo é o STF, sem o carro e sem o sargento”, repetiu, fazendo ainda referência à fala do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que, em palestra, afirmou que para fechar o Supremo não seria necessário nem o carro, bastaria um cabo e um soldado. “Estou saindo do processo por entendê-lo deslegitimado. O voto foi declarado como fechado e eles abririam o voto”.

A primeira votação foi anulada, após os escrutinadores observarem que havia 82 votos na urna, e não os 81 correspondentes ao número de votantes. Depois de muita discussão, o presidente José Maranhão (MDB-PB) decidiu pela nova votação. Neste segundo momento foi que um maior número de senadores passou a declarar o seu voto.

Se não tivesse desistido da corrida, Renan poderia ter levado a votação ao segundo turno, já que, quando renunciou, o processo estava apenas se iniciando e muitos dos que haviam prometido votos a ele, não haviam votado. Na contagem dos resultados, Davi ficou com apenas 1 voto a mais do que o necessário para vencer no primeiro turno.

Renan teve 5 votos, enquanto Esperidião Amin (PP-SC) conseguiu 13; Ângelo Coronel (PSD-BA), 8; Reguffe, (Sem partido – DF), 6; e Fernando Collor de Mello (PROS-AL), 3.

Ao assumir a Presidência, Davi Alcolumbre agradeceu aos senadores Álvaro Dias (Podemos-PR), Simone Tebet (MDB-MS) e Major Olimpio (PSL-SP), que abriram mão da disputa em seu favor, e também se dirigiu a Calheiro. “Quero dizer ao senador Renan Calheiros que terá dessa Presidência o mesmo tratamento que todos os partidos devem ter”.

Ele também garantiu que, como presidente, respeitará a oposição e trabalhará para reunificar a Casa. “Deixo claro que não conduzirei um Senado de revanchismo. Os meus adversários terão, todos eles, de minha parte, pujante disposição para o diálogo e cooperação”, prometeu.

O DEM retorna ao comando da Casa depois de 18 anos e passa a dividir com o MDB a hegemonia no cargo. Desde a redemocratização, em 1985, o partido de Renan vinha comandando a Mesa, com um único intervalo, entre 1999 e 2001, quando o baiano Antônio Carlos Magalhães, do DEM, que à época se chamava PFL, foi presidente.