Inspetores de barragem que ruiu em Brumadinho tinham vínculos próximos com Vale

A companhia que certificou a segurança de uma barragem que ruiu na semana passada em Brumadinho, matando ao menos 110 pessoas, trabalhou tanto como consultora quanto avaliadora independente da segurança para a proprietária do empreendimento, a Vale, o que levanta questões entre especialistas sobre potenciais conflitos de interesse.

Funcionários da empresa alemã TÜV SÜD, que a Vale contratou para certificar a segurança da barragem, agiram como consultores da companhia brasileira para o fechamento de minas no Brasil, mostram documentos. Os laços próximos entre as empresas são reforçados pelo fato de que funcionários da TÜV SÜD foram coautores em relatórios de pesquisa com a Vale e falaram em conferências com trabalhadores da gigante da mineração brasileira.

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Corpo de Bombeiros de Minas Gerais retoma as buscas por sobreviventes da tragédia causada pelo rompimento de uma barragem da mineradora Vale em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), na manhã deste sábado (26) (Foto: FERNANDO MORENO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)

Os melhores padrões da indústria de gerenciamento de barragens de rejeito como a que ruiu em Brumadinho ressaltam que o inspetor de segurança - também conhecido como auditor - seja capaz de demonstrar independência de seus clientes. "Em princípio, este é um conflito de interesses", afirma Eduardo Marques, professor de Geologia e Engenharia da Universidade Federal de Viçosa, referindo-se em geral a esse tipo de dupla função.

A barragem da Vale rompeu em 25 de janeiro, inundando a área com rejeitos da mina Córrego do Feijão - a água e os produtos químicos usados na mineração. Outras 238 pessoas estão desaparecidas e podem estar mortas. Uma investigação está em andamento para determinar as causas.

Uma porta-voz da Vale afirmou por e-mail que a TÜV SÜD é uma auditora externa da companhia brasileira. Ela não respondeu diretamente se o papel duplo da empresa alemã representaria algum conflito de interesses. A porta-voz disse que a barragem havia sido inspecionada repetidamente e monitorada não apenas pela TÜV SÜD, mas por outras companhias externas e pela própria Vale. Ela acrescentou que a inspeção mais recente da Vale havia sido de 22 de janeiro e mostrava estabilidade na área.

A TÜV SÜD, por sua vez, afirmou em comunicado que havia concluído avaliações na barragem em junho e setembro de 2018. A companhia disse que lamentava o acidente, mas que não podia comentar mais, diante das investigações em andamento.

Apesar de algumas diretrizes internacionais no setor, é comum no Brasil que companhias como a TÜV SÜD assumam papel tanto de consultorias quanto de inspetoras de segurança, disseram especialistas. Fonte: Dow Jones Newswires.