Bolsonaro: Minha morte interessa a muitos

Presidente eleito endossa temor de seu filho e afirma que "é preciso estar esperto o tempo todo"

O presidente eleito Jair Bolsonaro afirmou ontem que há gente interessada em sua morte, endossando comentário feito por seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) no Twitter na noite de quarta-feira.

Ao comentar a mensagem enigmática do filho – “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de sua posse! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam todo o enredo diário!” –, o futuro presidente não procurou minimizar ou tranquilizar a população.

Longe disso, Jair Bolsonaro reforçou o clima de apreensão. “Minha morte interessa a muita gente”, disse ele, sobre a postagem do vereador. Perguntado sobre quem seriam aqueles “que estão muito perto”, ele tergiversou. “Quando eu recebi a facada estava muito próximo de mim o elemento, é necessário estar esperto a todo momento”, respondeu como quem não entendeu o sentido da figura de linguagem usada pelo filho.

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Em lugar de desmentir seu filho Carlos, o presidente eleito confirmou que corre risco (Foto: Reprodução do Facebook)

O futuro presidente aproveitou para levantar as suspeitas novamente sobre as circunstâncias que envolveram o atentado que sofreu no dia 6 de setembro, em Juiz de Fora, quando o ajudante de pedreiro Adélio Bispo de Oliveira conseguiu furar o bloqueio da segurança e o atingiu no abdômen com uma faca. “Ele [Adélio] era filiado ao PSOL. No meu entender a investigação está muito próxima de estar concluída”, disse.

Segundo as investigações, Adélio agiu sozinho por discordar das ideias do então candidato a presidente.

Diante da incógnita que cercou, primeiro a fala do filho e, depois a do próprio presidente eleito, o coronel Hamilton Mourão, vice presidente eleito e primeiro na linha sucessória, foi curto e grosso. “Essa aí eu não sei”, disse ele ao ser indagado sobre quem teria interesse na morte de Bolsonaro.

Para João José Forni, especialista em comunicação pública e gestão de risco, a postagem de Carlos Bolsonaro, seguida da confirmação do pai, ainda que seja fruto de brigas internas pelo poder na equipe de transição, “é comprometedor, porque não se trata de um comentário trivial ou uma crítica a uma pessoa ou outra indicada para o ministério. Ele disse que o futuro presidente pode ser assassinado e, pior, por alguém que está próximo. Ameaça, inclusive, a soberania nacional”.

O mais grave, para Forni, é que a declaração saiu de uma fonte credenciada, que não é apenas porta-voz, mas o próprio filho do presidente. “Resta saber se a postagem foi combinada. Aparentemente sim, pois o pai confirmou. Então, para quê? Qual a estratégia?”, indaga Forni, citando também a repercussão que o episódio teve nas redes sociais.

O especialista diz ainda que falta ao governo a montagem de uma política de comunicação que tenha o respaldo do presidente. “Falta a Bolsonaro um porta-voz. Isso é perceptível. Mais do que isso, falta coordenação da comunicação. É preciso centralizar a comunicação e definir, com o respaldo do presidente, o que se dizer”.

Bolsonaro chegou a cogitar a possibilidade de manter exatamente Carlos no comando da comunicação do próximo governo. Como a repercussão foi ruim, ele acabou desistindo.

Ele promete para a próxima semana a divulgação dos nomes que ainda faltam ser indicados para compor o seu governo. Ele já antecipou que estuda a nomeação da senadora Ana Amélia (PP-RS), candidata a vice-presidente na chapa do tucano Geraldo Alckmin para o cargo de porta-voz.