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Tradição escondida em nome do desconforto

Bayer aluga Piantella, mas retira fotos que caracterizam restaurante

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Os políticos de Brasília foram, todos, considerados “personas non grata” pela Bayer, a poderosa empresa de medicamentos alemã que promoveu, nesta sexta-feira, um grande evento no restaurante Piantella em Brasília. Tradicional reduto da classe política na capital da República, o restaurante foi fechado para cerca de 300 convidados, entre eles toda a direção nacional e executivos internacionais da multinacional alemã. Para realizar seu evento, no entanto, a empresa exigiu que fossem retiradas, sem exceção, todas as fotos expostas no restaurante, o que inclui imagens dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardos, Luiz Inácio Lula da Silva, os ex-governadores Geraldo Alckmin e Leonael Brizola e o ex-deputado Ulisses Guimarães.

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Esta imagem de Ulisses Guimarães foi uma das que foram retiradas do Piantella (Foto: Orlando Brito/divulgação)

O fato já repercutiu no Congresso Nacional. Três deputados, pelo menos, um do Rio, outro de Pernambuco e outro de São Paulo, que têm suas fotos no Piantella, disseram que não receberão mais os lobistas da Bayer que os procurarem para pedir favores e defender os interesses da multinacional. “Isso foi uma afronta , um desrespeito”, disse um deles. “Vou para a tribuna esculhambar essa gente. Na hora de matar as pessoas com seus ‘produtos laranja’, eles nos procuram. Deixa a Bayer comigo”, arrematou o deputado revoltado.

‘Ficaria mal para a empresa’

Para que fosse atendido o pedido da Bayer, cerca de 200 fotos tiveram de ser retiradas das paredes do Piantella, a maioria do fotógrafo Orlando Brito. Segundo a diretoria da Bayer, “ficaria mal para a empresa aparecer ao lado dos políticos brasileiros”.

Prova da importância do Piantella para a política nacional deu-se no dia 7 de março de 2017, quando o jornalista Ricardo Noblat comemorou seus 50 anos de carreira no local. Na ocasião, estiveram presentes senadores como José Serra e Aécio Neves, do PSDB, ministros como Moreira Franco e Eliseu Padilha, do MDB, e até o presidente Michel Temer, que deixou o local um pouco mais cedo, por volta das 21h45.

Irmão do dono do restaurante, Roberto Peres, o diretor-presidente do JORNAL DO BRASIL, Omar Resende Peres, se despediu de Temer perguntando por que ele não ficava mais um pouco. O presidente respondeu que, infelizmente, tinha um compromisso inadiável àquela hora.

O compromisso, soube-se depois, foi o encontro com Joesley Batista, na garagem do Palácio do Jaburu, no qual o dono da JBS gravou o presidente dando aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, entre outros assuntos. Se Temer tivesse ficado no Piantella, a história poderia ter sido diferente...



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