O editor leo christiano acaba de publicar as edições fac-similadas do jornal das tropas brasileiras na campanha da itália, o cruzeiro do sul , redigido pelos próprios combatentes, entre eles o então soldado raso jacob gorender, com suas fortes reflexões sobre o dever de nossa participação no conflito. o jornal começou a circular em 3 de janeiro, e seu último número é datado de 3 de maio de 1945. reproduziu ele algumas crônicas de rubem braga, joel silveira e egydio squeff.
Em uma delas, diz rubem braga, com seu texto inimitável: “encontramos no meio do caminho o general cordeiro de farias, que está deixando crescer um bigode. no front, mesmo a saudade é horrivelmente monótona”.
Os cronistas de guerra podem ser pintores, como goya, ou fotógrafos, como robert capa, que morreu no vietnã, em 1954, aos 31 anos, com a câmera entre as mãos e as pernas dilaceradas pela mina em que pisara.
O americano ernie pyle morreu em 18 de abril de 1945, em uma pequena ilha do arquipélago de okinawa. em companhia de um tenente-coronel, comandante do contingente que seguia por uma estrada já aberta ao tráfego pelas tropas de vanguarda, e de mais três homens, foi surpreendido por um tiro. seu primeiro cuidado e suas últimas palavras se dirigiram ao tenente-coronel joseph coolidge, a seu lado: “você está bem?”. o segundo disparo atingiu-o na cabeça. pyle tinha 45 anos – nascera em 1900 – e 22 anos de jornalismo.
Entre 1935 e 1940 fizera o que tem sido o sonho de muitos jornalistas: viajara pelo interior de 38 estados americanos em um fordeco, redigindo crônicas sobre o cotidiano das pessoas comuns, nos tempos mais difíceis do século americano, os da grande depressão.
Na áfrica, pyle procura abrigo em uma trincheira, quando um avião alemão, em voo rasante, metralha a posição. pyle bate no ombro do jovem soldado americano, que tinha o pavor no rosto: “passou perto, ein?”. o soldado não respondeu. estava morto.
Nós tivemos os nossos grandes cronistas de guerra que, em sua narrativa, mostraram toda a brutalidade do conflito, a bravura e as emoções de nossos pracinhas que, felizmente, voltaram vivos. os dois mais importantes foram rubem braga e joel silveira.
Joel narrou a morte de um herói, o sargento wolf: “vi perfeitamente quando a rajada de metralhadora rasgou o peito do sargento max wolff filho. instintivamente ele juntou as mãos sobre o ventre e caiu de bruços. não se mexeu mais. o tenente otávio costa, que estava ao meu lado no posto de observação, apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. quando lhe perguntei se o homem que havia tombado era o sargento wolff, ele balançou afirmativamente com a cabeça.
Menos de uma hora antes eu estivera conversando com o sargento. creio que foi a mim que ele fez suas últimas confidências. falou-me de sua filha, uma menina de dez anos de idade, que ficou no brasil.
Disse-me que era viúvo e deu-me notícias de que sua promoção a segundo-tenente, por ato de bravura, não tardaria a chegar. e como eu estava recolhendo mensagens entre os homens de seu pelotão de choque, já formados para a patrulha de minutos depois, o sargento max wolff pediu-me que também enviasse uma sua. estão comigo as poucas linhas que sua letra delicada e certa escreveu no meu caderno de notas. aos parentes e amigos: “estou bem. à minha querida filhinha: papai vai bem e voltará breve”.