WILSON FIGUEIREDO

Mandato por fora e desafio à lei da física

Sem a reeleição, a solução seguiria curso natural: um presidente governando e o outro afastado para o ócio

Wilson Figueiredo escreve nesta coluna aos domingos e terças-feiras.

JÁ NÃO ESTÁ SUSPENSAsobre a cabeça dos brasileiros a dúvida sobre se o governo Lula seria o último desta série que começou bem ou o primeiro de uma nova comindícios de que pode não dar certo. A segunda hipótese prevaleceu, mas a di- ferença continuapequena. É apostar, portanto, que a história não se repita. Estamos vindo de uma etapa que teve margem su- ficiente para acabar mal, mas se deteve a tempo. O resto adia-se. É certo tambémque nenhum orador oposicionistaprecisará desembainhar aespada deDâ- mocles edeixá-la suspensaso- bre nossas cabeças. Por conta dele, Luiz Inácio Lula da Silva, de dúvidas e in- certezas só se ficará sabendo daqui a quatro anos. Vai come- çar paraele, praticamente ex-presidente, uma espécie de mandato por fora. Dependerá dos dois protagonistas que pre- tendem desafiar uma lei da fí- sica,segundoa qualdoiscor- pos nãoconseguem ocuparo mesmo lugar no espaço ao mes- mo tempo: a Presidência se re- serva apenas para um (e o outro que se arranje como puder). Jásetem comocertoquea situação ambíguaterá deser decidida peloque estiveres- crito na Constituição e não nas estrelas. Volta-se ao eterno en- redodesdeque seinventoua reeleição. Sem ela, a indeseja- da da República, a solução se- guiriacurso natural,comum presidente governando e o ou- tro despachado para o ócio com dignidade. Nada parecido com a antiga figura do ponto que, de um buracono chãodo palco, socorria os atores de teatro nos lapsos de memória em cena. O praticamente ex-presiden- te Lula incorrenuma das vá- rias contradições que o acio- nam em todasas direções. Ao mesmo tempo que não pode se omitir, precisaser cauteloso para evitar aimpressão de se intrometer no governo que na- da mais tem a ver com ele. Mas, se nãomarcar presença,na melhor das hipóteses deixará de ser lembrado para 2014. A presidente DilmaRousseff nãopodeser ouparecerin- ma verá seu espaço se compri- mir no equacionamento do go- vernoque aespera. Asombra dele járonda oesboço minis- terial, cuja negociaçãofoge a qualquer controle.Qual foio papel de José Dirceu e Palocci no primeiro governo? Como acabaram?Ora,se anovafa- chada do governo está por um mês emeio nacontagem re- gressiva, quemtem aganhar pode se preocupar e quem tem a perder não pode comemorar. Uma hora dessas Lula fará ou- vir sua voz rouca de impaciên- cia (semnada aver coma das ruas),e amontagem doespe- táculo reanimará os pessimis- tas que esperam calados. Con- tinua de péo princípio segun- do o qual, da mesma forma co- mo no genuinamente nacional jogo do bicho, as condições de- pendem do que esteja escrito, as conclusões podem divergir à vontade. O Brasil está mais pa- ra exame oral. Antes de governar o país do qual ouviu falar bem desde o banco escolar, o presidente Lula, com um pé no futuro e o outro no ar, já se apresentava com os cacoetesque fizeram dele oúltimo governantedo Brasil confiado ao futuro. Ninguém, portanto, melhor do que Lula para fazer a tran- siçãode umaRepúblicaque se anunciava em discursos de posse e logo outro se apresen- tava depois da posse. Um dia se dirá, quando tudo grata com seu antecessor e benfeitor. Masterá deman- tê-lo a distância. Liquidada a fatura política,precisará sombrearo semblantequan- do a conta da vitória bater às portas do seu governo. Quem pagará a despesa do que não tiver dado certo? Entre dar oprimeiro tranco emLula efazerde contaque não percebe o desconforto, Dil-

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que está em processo tiver pas- sado, que Lula foi o presidente que faltava, na hora que já es- tava atrasada. Demorou a che- gar, mas fechou o último ciclo republicano comrompantes deimperador nadecadência de Roma. Só faltou mesmo in- cendiar –metaforicamente, bem emtendido –Brasília, e ser fotografadocom atúnica de Nero e a harpa em punho.

Um dia se dirá que Lula foi o presidente que faltava na hora que já estava atrasada