Mauro Santayana

MEMÓRIA

A lua sobre as tendas

E

ra noite, estávamos, minha mulher e eu, em um dosacampamen- tos saarauis. Regressá- ramosdeuma visitacomos guerrilheiros àzona decom- bate do SaaraOcidental, co- lôniaespanhola de1502até 1975, quando morreu Franco. Ogoverno espanholnego- ciou a entrega da área ao Mar- rocos e à Mauritânia, em troca danão intervençãodeRabat nos enclavesde Ceutae Me- lilla.A ONU insistiu em que a Espanha assumisseas suas responsabilidades históricas e administrassea descoloni- zação, mas isso não ocorreu. Trinta e cinco anos depois, o território saaraui continua ocupado,com 250milrefu- giadosvivendo daajudain- ternacional. Naquela noite – e as noites são frescas no deserto – jantamos e saímos para pequeno passeio. Umadas mulheresquedavam guarda ao acampamento nos acompanhou à pequena eleva- ção,deonde podíamosveras centenas de tendas reunidas, fracamente iluminadas em seu interiorpelos lampiões,mas sob a poderosa luz prateada da grande lua cheia. Não havia jovens entre eles, a não ser os poucos que passavam algumas horas com as famílias, entreum combatee outro.A maioriaera demulheres,de pessoasidosas edecrianças. Mas havia um Estado, com suas instituiçõesfuncionan- do:juízes, sacerdotesislâmi- cos,escolas, pequenoshospi- tais, administração pública. Todas as tarefas, fora aquelas em que a presença masculina era tradicional, como as da jus- tiça e dareligião, estavam a cargo das mulheres. Era uma noite muito bonita, com a lua e as grandes estrelas se destacando no céu profunda- mente negro. Comentamos, em espanhol– ajovem quenos acompanhava conheciabem a língua que fora oficial até pouco tempoantes –que aquelaera uma visão de paz e tranquilida- de, embora soubéssemos do so- frimento de seu povo. Depois do passeio, regressa- mos à tenda, e nos serviram o chá preto, bem quente e doce, antes que nos acomodássemos na cama feita de tapetes. Quando apagamos o lampião, o luar ent rava pela pequenaja- nela datenda, fechadapelo plástico transparente. Issofoi hátrinta anos.Há duas semanas, recebia visita, em Brasília, de Hamni, da Re- pública Árabe Saaraui Demo- crática,aquem nãoviadesde então. Ele me disse de seu de- salento,queé odesalentode seu povo. O governo espanhol, aodescumprir asdetermina- ções daONU, aplacaa cons- ciência com modesta ajuda hu- manitária – eos outros países fazem o mesmo. O Brasil os aju- dou com US$ 300 mil este ano, mais ou menos US$ 1 para cada um dos refugiados. “Nossagen- teaceitou atréguaproposta, confiandona comunidadein- ternacional, que nos garantiu a realização de um plebiscito jus- to, que até hoje não se realizou, e já está cansada. Os jovens da- queletempo envelheceram,e os meninos, quese fizeram ho- mens sob as tendas e debaixo da ocupação de nossas cidades, co- meçama sentirque émelhor morrer lutando”. Poucos dias depois desse en- contro, jovens saarauis, resi- dentes em El Aayun, decidi- ram protestar contra o governo deRabat, armandosuasten- dasno desertopróximo àci- dade. Tropasmarroquinas destruíram o acampamento e o incendiaram matando, ferin- do e prendendo, diante de uma resistênciadesarmada. Ases- colas foram transformadas em prisões. A Espanha,sob Za- patero, cruza osbraços. Em- presas espanholas já se en- contramem contatocomfir- mas europeias e americanas, interessadasem exploraro petróleode Tindoufe orico fosfato da região, além do bem sucedido banco pesquei- ro, com o estímulo de seus go- vernos e sob o beneplácito do rei de Marrocos. QuandoHamni sedespediu de mim em Brasília, de volta ao deserto, lembrei-medas ten- das e da lua. Hamni me disse que,se voltasselá agora,pro- vavelmente oluar invadiria mais ainda a tenda em que per- noitasse, porque muitas delas também envelheceram, estão esgarçadas, cheias de furos – e a comida maldá para manter de pé os refugiados. Entendo que queiram mor- rer lutando.

Arte Sydronio