De Gaulle e a honra da França

Sarkozy tentou apelar para a grandeza de De Gaulle, em busca de socorro, mas o velho general não o ouviu

ONTEM, HÁ QUARENTA ANOS, o generalCharlesde Gaullemorria, emColom- bey-les-Deux-Églises. Ele foi um dos gigantes do século 20, quandoainda haviaestadis- tas nomundo. Hásetenta anos, em 18 de junho de 1940, com seu apeloao povo, para quelutasse contraoinvasor alemão, De Gaullesalvou a honrada França,antesque ela se perdesse de todo, dian- te davergonhosa capitula- ção de Laval e Pétain, do co- laboracionismo ativo de Vi- chy. Com seu chamado, orga- nizou-se a Resistência. De Gaulle foi um grande es- trategista e havia aconselha- do seupaís, nosanos 30,a adotar medidas militares queos alemãesdepoisem- pregariam. Ele duvidava, e com boas razões, da eficiên- cia da Linha Maginot, e que- ria criarforças blindadas bem estruturadas,apoiadas pela aviação, a fim de romper a frente inimiga,quando a guerraviesse. Sabiaqueela se tornariainevitável, dian- te da poderosamáquina mi- litar alemã,coesa emsua obediência a Hitler.Mas to- das essas qualidades milita- res foram menoresdo que a sua consciência deEstado e denação. Nahistória deseu país, um só homem fora capaz de se devotar ao Estado com tamanhadedicação –ocar- deal de Richelieu. Em junho de 1940 as elites francesas pareciam ter abdi- cado da pátria, salvo alguns de seus filhos que, ao lado dos trabalhadores e intelectuais, lutaram, foram torturados, assassinados oudeportados para os campos de concentra- ção, de onde poucos retorna- riam. Naqueles quatro anos, em que durou a presença ale- mã, só na Resistência houve o compromisso cotidiano de solidariedadeque fazasna- ções, conforme a definição de outro francês, Renan. No momento mesmoque a França seviu invadida,De Gaulle ordenou-lhe, de Lon- dres, que resistisse. Paris foi ocupada no dia 14 de junho. DeGaulle sóconseguiuau- torizaçãode Churchillpara como pudessem. Naquele momento, outro francês, Giraud,comandava unidades navais que se en- cont ravam fora da França no momento da capitulação. Gi- raud parecia mais importan- te do que De Gaulle, porque dispunhade tropasede meios de combate e de maior confiança dosaliados. De Gaulle sabia queas poucas tropas disponíveis fora do so- lo francês, ainda que lutas- sem comdenodo, nãoresol- veriamo problemamaisim- portante da França, que era interno. Naquele momento – eissofoi lembradoontem– sua ideia de nação era maior do quea própriaFrança tal- veztivessede simesma.Ele acreditou em umpovo que – salvo alguns enlouquecidos patriotas como ele mesmo – nãoparecia maisacreditar em si mesmo. Sua aliança não poderia ser com outras forças que não fossem as da esquer- da, em que se incluíam os in- telectuais dadimensão de Vercors, com suas Edições de Minuit. Os conservadores es- tavam aolado doregime pró-fascista de Vichy. Seu de- legado na França, Jean Mou- lin, conseguiu unificar todos os setores da Resistência, em que predominavam os comu- nistas e outros esquerdistas. A ideologia de De Gaulle era a do nacionalismo. As nações, como os ho- mens, podem ser vencidas pela força, masnão pela de- sonra.Quando elasfraque- jam,conduzidas porgover- nantes acovardados, como os de Vichy, cabe aos grandes – comofoi DeGaulle –devol- ver-lhes essenecessário compromisso ético. Sarkozy tentou apelar para a grandeza de De Gaulle, em buscadesocorro paraoseu débile cambaleantegover- no. Mas o velho general não o ouviu. Sob a imponente cruz deLorena, seutúmulomo- desto é o testemunho de uma grandeza que hoje parece perdida na História. sedirigir aseuscompatrio- tas no dia18. Seu primeiro apelo durou poucos minutos. Condenou a capitulação dos governantes de ocasião, afir- mouque aAlemanhaseria derrotada pela aliança que se formava, e pediu que todos os franceses resistissem e lu- tassem,onde estivesseme