Visão restrospectiva politicamente possível

Dilma e Serra já não representam as ideias que os moviam na passagem da juventude à idade adulta

O ACERTO DE DIVER- GÊNCIASentreduas gera- ções que se desentenderam ce- do e vierama se confrontar nesta sucessãopresidencial, no recomeço da história, mais uma vez está adiado por tempo imprevisível. Outronão ocor- rerá tão cedo. Dilma Rousseff e JoséSerra jánão represen- tam as ideias que os moviam na passagem da juventude para a idade adulta, por causa das duas geraçõesa queperten- ciam. Serra formou seus con- ceitospolíticos, aindaestu- dante ejá militante,num Brasil que não resolvera suas contradições acumuladas em torno do nacionalismo econômico dos anos50 e do insucesso da democracia, co- mo a concebeu a Constitui- ção de 1946. Dilma Rousseff veio com a geração seguinte,nos anos 60. Depoisdo AI-5,a priori- dade juvenil escolheu o con- fronto com aditadura e, ao mesmo tempo, um projeto de esquerda,a serdefinidode- pois, atropelou as duas gera- ções e interrompeu,por vin- te anos, a continuidade cons- titucional do Brasil na segun- da metade do século 20. Pode-se dizerque ambos, Serra e Dilma, representaram modos políticos de ver e resol- ver questões econômicas e so- ciais queenvolveram asduas gerações.Serra sebeneficiou da revigoradavisão democrá- tica que, incluindo o Brasil, ali- viou o mundo com a vitória mi- litar sobre o fascismoe o na- zismo. Foicontemporâneo da formulaçãoe daexpansãodo pensamento econômicoasso- ciado à democracia revigorada pelo nacionalismo econômico. Dilma Rousseff pertence à ge- ração seguinte, quese apre- sentou muito cedo à resistên- cia radical contra a ditadura. Com o advento das crises po- líticas e o ocaso das liberdades democráticas nos anos 60, a ge- ração – ainda estudantil – an- tecipariapresença noespaço onde a representação política exercia oócio semdignidade. alternativa daluta armada. Prevaleceu a iniciativa de mo- bilizar a classemédia para a empreitada, mas as diferenças semultiplicaram. Dessede- sencontro resultou o distan- ciamento entre a esquerda re- presentada pelo partidão e os movimentos radicais com pe- quenas diferençasentre eles. A divergência se prolongou com dificuldadesimprevistas eresistiu àvolta,lenta egra- dual, à legalidade. E fomentou amávontade queseestabe- leceu entreas diferentesvi- sões de esquerda e levou à cria- çãodo PT,somando ajuven- tude católica, o movimento sindical e intelectuais por uma visão política em torno da qual se estruturouo partidoquan- do ascondições permitiram. Desde logoo PTrecorreu ao sectarismo como método para se manter isolado,ter candi- datos puro-sangue e destilar intolerância no relacionamen- to com outras tendências. Primeiro foi a recusa de par- ticipar da negociação com o governo militar e depois com a candidatura deTancredo Ne- ves à eleiçãoindireta. O ato político definitivo foi a repre- sentação petistana Consti- tuinte recusar-se a assinar a Constituição. A difícil convi- vência com outras tendências, mesmo de esquerda e particu- larmente coma social-demo- cracia recém-chegadaao Bra- sil, malbaratoua oportunida- dede recomeçodemocrático. Foi quando se sedimentou o ressentimento petista, que se manifestou no segundo turno da campanha presidencial vi- vida por Dilma Rousseff e José Serra.Duas candidaturasde esquerda são umluxo ocioso, como ficou evidente no último capítulo de uma evolução des- necessariamente lentae inu- tilmente gradual. Desde o co- meço, tudo seentende, mas nada se explica. Apresidente DilmaRous- seff é, por enquanto, a expres- são do politicamente possível, mas àespera de nãose sabe exatamente o que será. Inevitável que formas de luta que nãoconvenciam osmais velhos parecessem perfeita- mente viáveis à juventude. O acertodas divergências entre as duas gerações veio sendo adiado ao longo do tem- popela impossibilidadede conciliar, nateoria ena prá- tica,avia democráticacoma