Maur o Santayana

-->Maur o Santayanamaur osantayanajb.com.br-->VA L O R E S-->Ensaio sobre a traição-->O-->tema da tr aição é dos mais instigantes na li - ter atur a uni v e r sal, se - ja nos estudos políti - cos, seja na ficção . Os no v e listas de tele visão sa bem que a tr aição , no amor e nos negócios, é o g r ande -->appeal -->par a as massas. As r e lações do poder têm como eixo a lealdade e a tr aição . Sempr e que tr aímos uma ideia, um país, um amigo ou um amor , estamos op - tando por l ealdade mais f orte, por uma a tr ação mais poder osa. T r ai - ção e x ige dissi - m u lação , astúcia, a u d á c i a . É um ar- riscado jo go com as cir cunstân- cias. Mas nem to- das as tr aições são a bjetas. A mais céle- br e tr aição política da História f oi a de Brutus, que armou a cons- pir ação contr a César . O s te xtos históricos não conseguem ir ao âmago do episódio com a pr ofun- didade de sua r ecriação literária por Shak espear e, no inigualáv el duelo or atório entr e M ar co An- tônio e Brutus. A apolo gia de Bru- tus é mais poder osa do que a acu- sação de Mar co Antônio , m as o sentimento das massas pende em f a v or de César . Brutus em seu discur so v ai à glândula mais ín- tima do v alor da tr aição , quando diz que não matou César por que o amasse menos, mas por que ama- v a mais a Roma. A lealdade à pátria se impunha à lealdade po- lítica a um amigo . “ Aqui estão as lág rimas pelo seu amor; aleg ria pela sua sorte; honr a pelo seu v alor; morte por sua ambição”. Na liter atur a moderna, o me - lhor te xto sobr e o assunto é o de J or ge Luis Bor ges, -->T ema del tr ai - dor y del héroe -->. Embor a seja r o - tulado como conto , tecnicamen - te é uma f orma, tão costumeir a no gênio ar gentino , em que se confundem a crítica literá - ria, a especula - ção filosófica e o ensaio histó - rico . Ao tr atar da situação po - lítica interna da Ir landa do início do século 19, Bor ges in - siste na uni v er salidade do ar - gumento , que é o da dupla con - dição de herói e de tr aidor . Ber - nar do Bertolucci tr aduz par a a linguagem cinemato g ráfica o te xto de Bor ges, e o atualiza, situando-o na Itália sob Mus - solini, com o magnífico -->A estr a - tégia da ar anha -->. A discussão fi - losófica de Bor ges desce aos diá - lo gos do r oteir o , r edigidos por Bertolucci. Se, no r elato de Bor - ges, quem tr ata de descobrir quem f oi F er gus Kilpatrik é um seu neto , no filme o in v estiga --->Sydr onio/Ar te sobr e foto CPDocJB-->Convocado para uma série de atos de sabotagem, que culminariam com a explosão do Gasômetr o-->“Aqui estão as lágrimas pelo seu amor; alegria pela sua sor te; honra pelo seu valor; mor te por sua ambição”-->dor é o próprio filho do tr ai - dor -herói. A mensagem maior das duas v er sões é a mesma: as g r andes causas não necessitam de tr aidor es mas, sim, de heróis. P or isso , tanto Kilpatrik quanto Atos Magnani suger em a seus companheir os, “tr aídos”, que atribuam a outr os a sua morte, e deles f açam mártir es e não vis tr aidor es. O ir landês e o italiano são v ener ados como heróis, e seu f also martírio é um estím ulo par a a luta da independência do Eir e e par a o combate ao f as - cismo na Itália. Há dias, ao f alar em um semi - nário sobr e ética pública, em Br a - sília, tr atei desse tema, com dois e xemplos br asileir os, o da Cons - pir ação Mineir a de 1789 e o da atitude cor ajosa do capitão Sér gio Mir anda de Car v alho , o Sér gio Ma - caco . Os conjur ados de V ila Rica f or am, quase todos, funcionários do Estado colonial português. T ir a - dentes er a – como Sér gio Macaco – militar , e g r ande parte dos outr os, como T omás Antonio Gonzaga, al - tos ser vidor es da metrópole na ca - pitania. F o r a m “ t r aidor es”: tr aí - r am sua cor por ação , seus c hefes imediatos, até mesmo seus ami - gos, fiéis ser vidor es da cor oa portuguesa. Os sacer dotes en - v olvidos também “tr aír am” a Ig r eja, fer oz defensor a do do - mínio ibérico sobr e o Br asil. O caso de Sér gio Macaco é de nosso tempo . Oficial do g rupo de elite da F orça Aér ea, o P ar asar , encarr egado do salv amento de ví- timas de acidentes e de catás- tr ofes natur ais, Sér gio se desta- ca v a pela sua br a vur a, e já f or a condecor ado quatr o v e z es. Con- v ocado par a uma série de atos de sa botagem, que culminariam com a e xplosão do Gasômetr o do Rio , que causaria a morte de mais de 100 mil pessoas, o oficial r e - cusou alti v amente a missão , e a r e v elou ao brigadeir o E duar do G o m e s . O r e belde de 22 inter - v eio com a sua autoridade sobr e a F orça, e a bortou o plano dia - bólico , que seria atribuído aos “terr oristas”, como costumam ser qualificados os que r esistem contr a os r egimes totalitários e ilegítimos. Sér gio Macaco não r ei vindica v a anistia, por que não cometer a nenhum crime, mas sim queria o r econhecimen - to de sua conduta mor al e de sua fidelidade ao jur amento à Ban - deir a, ou seja, à pátria. Em sua -->Suma teológica -->, Santo T o - más de Aquino se antecipa a d r a - mas como o de Sér gio Macaco , ao esclar ecer que “certos seg r edos são de tal natur eza que somos obri - gados a r e v elá-los no momento mes - mo que deles tomamos conheci - mento; por e xemplo , aqueles que têm por objeti v o a ruína espiritual ou material da sociedade, ou que comportem um g rave dano a uma pessoa ou qualquer outr a conse - quência danosa deste gêner o . So - mos obrigados a di vulgar esses se - g r edos seja tr az endo o seu teste - m unho , seja pela denúncia. A obri - gação do seg r edo , ou de manter o seg r edo , não tem v alidade contr a um tal de v er , por que f altar emos en - tão à lealdade de vida a outr em”. O pr oblema é identificar o que seja “ruína espiritual ou material da sociedade”. F oi sob tal pr ete xto que ti v emos duas décadas de terr orismo de Es - tado em nosso país, com assas - sinatos, tortur as, salários mise - ráv eis, r etr ocessos políticos.