Ser acusado de corrupção com dinheiro do povo pode.Tratar povo como burro, não

Se uma empresa sofre acusações infundadas - sobretudo quando essas acusações são graves, envolvem cifras bilionárias de dinheiro público e a mais importante estatal brasileira - a sua reação deve ser diretamente proporcional. O acusador, se estiver falando mentiras, deve enfrentar um processo na Justiça tão pesado quanto as falsas injúrias.

Contudo, uma nota paga, que tem como objetivo a defesa desta empreiteira, mas que se limita a afirmar que a relação de um alto executivo e um lobista se deu apenas para efetivar a compra de uma lancha, é tão inexpressiva e desprovida de consistência que nem de longe afasta as suspeitas fartamente divulgadas pela Polícia Federal e pela imprensa.

Ainda mais quando, ao vasculharmos o passado, constatamos que executivos desta mesma empreiteira já recorreram ao expediente de publicar notas pagas em jornal com objetivos bem menos nobres. Curiosamente, também foi através de nota no jornal que a mesma empreiteira também viu ser desmascarada uma jogada ilegal em licitação pública.

Em 1987, o jornalista Jânio de Freitas, num furo de reportagem, antecipou os resultados da licitação da ferrovia Norte-Sul. Ele publicou cinco dias antes dos resultados um anúncio classificado cifrado com os dados dos 18 vencedores, revelando a farsa. Entre os vencedores estava a tal empreiteira que agora novamente se vê envolvida em escândalos.

Em 2001, nova nota paga - e cifrada - em jornal expunha relações nebulosas da empreiteira. Mas desta vez quem publicou foi um ex-executivo da própria empreiteira. De acordo com reportagem da Veja de 3 de outubro de 2001, Roberto Amaral, aposentado da empresa, mandou publicar em jornais do Rio e de Minas Gerais um anúncio misterioso no qual se refere ao seu sucessor, José Rubens Goulart Pereira, como um defunto. O texto comunica a realização de uma missa pela passagem do quinquagésimo dia da "morte" de José Rubens. A missa teria acontecido na Fazenda Guanabira, uma propriedade que Roberto Amaral tem no município de Bananal, no interior de São Paulo.

Contudo, José Rubens estava vivo, e substituiu Roberto Amaral em 1998 na diretoria paulista da empreiteira, chegando a assumir a presidência de um dos braços do conglomerado. Entre debochado e ofensivo, o anúncio também fala de políticos que teriam sido lembrados na tal missa, como os ex-governadores de São Paulo Orestes Quércia e Paulo Maluf. Fala por fim num misterioso Mr. Swenka, do "Banco Helvético Cordier", numa aparente mensagem cifrada.

No anúncio, de quase um palmo de altura, Roberto Amaral apresenta o desafeto usando o apelido de "Dolly", numa referência à primeira ovelha clonada do mundo.

Veja o texto do anúncio:

Roberto Amaral e família comunicam a realização, ontem, dia 24 de setembro, do quinquagésimo dia in memorian de José Rubens (Dolly), realizada na Fazenda Guanabira. Auxiliar dedicado por 28 anos, sócio minoritário por 17 anos (até 2001, ano em que não prestou contas, como fazia rigorosamente todos os anos), o autor de inúmeras cartas na qual demonstrava sua eterna lealdade e gratidão, deixou patrimônio real considerável. Presentes estavam entre outros, Mr. Swenka, do Banco Helvético Cordier, Gabriel Donato de Andrade e Sérgio Andrade - donos da empresa Andrade Gutierrez. Os donos da empresa lideraram com fervor o entoar de um salmo em louvor e solidariedade ao Dr. Paulo Maluf e seu filho, Flávio, para que terminem as persecutórias agruras que estão enfrentando. Ao piano, José Carlos Martins, o abandonado no caso Pau-Brasil. Gabriel e Sérgio também fizeram penitência pedindo perdão a Orestes Quércia.

Alguns personagens deste texto também aparecem no escândalo da construção do prédio da Eletropaulo. Idealizado em 1990, no governo Orestes Quércia, suas obras começaram com seu sucessor, Luiz Antônio Fleury Filho, e ficaram sob responsabilidade da Andrade Gutierrez. O valor inicial era de US$ 125 milhões. O Tribunal de Contas do Estado embargou a obra três anos depois, ao constatar o descumprimento do projeto original, que previa a construção de dois edifícios de 86 mil metros quadrados. Naquele momento o empreendimento já havia consumido US$ 250 milhões, a um custo médio de US$ 2,5 mil por metro quadrado, enquanto os edifícios da região eram erguidos a US$ 800 o metro quadrado. Em 1998, o prédio foi repassado ao fundo de pensão da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), como pagamento de dívidas futuras. Posteriormente, o imóvel voltou à carteira da Eletropaulo.

Envolvida em tantos escândalos nos últimos 30 anos, o melhor que esta empreiteira pode fazer é pedir desculpas, e não publicar notas pagas que nem as espertas e perspicazes crianças de hoje em dia acreditariam.