Labaredas do Oriente

Desencanto dos homens também fez chegar aqui as mesmas labaredas que incendeiam o Oriente

No Oriente, a indignação do povo com os desmandos, a corrupção e a opressão incendeia movimentos sociais. O povo bota fogo nas ruas para mostrar sua revolta e a necessidade de mudanças. 

Estas labaredas chegam ao Brasil da mesma forma e pelos mesmos motivos. O povo está desiludido e mostra isso nas ruas. Depreda patrimônios públicos como a Alerj, numa clara manifestação de desprezo pela classe política. Mas esta mesma Casa depois terá se ser recuperada com dinheiro do próprio povo, através dos impostos. 

Ao longo da história, o Brasil teve uma sequência de fatos históricos que levou o povo ao profundo estado de desilusão. Nos anos 1960 e 1970, vivíamos sob o signo da opressão. Nos anos 1980, com Sarney, os brasileiros vislumbraram os primeiros sinais de esperança, apagados por uma inflação galopante e escândalos de corrupção. 

Nos anos 1990, Collor - o caçador de marajás - aparecia como a salvação, mas sequer terminou seu mandato, sendo colocado para fora pelo povo, novamente abalado por expectativas frustradas. Fernando Henrique Cardoso chegou trazendo a mensagem de novos tempos, mas não tardou e seu governo apontou suas prioridades para banqueiros e empresários. Privatizações enriqueceram uma elite, cofres públicos socorreram bancos falidos, que passaram décadas usando o dinheiro do povo e recebendo benesses do Banco Central. 

Vieram os anos 2000 e o governo popular chegou ao poder com a promessa de uma grande guinada na ética e no compromisso com os brasileiros. Após medidas que trouxeram uma nova perspectiva de vida, fundamentalmente aos pobres - como sistemas cotas, bolsa família, moradias, remédios a preços populares, cestas básicas mais baratas - a Justiça afirma que o parlamentares foram corrompidos para aprovar decisões do governo. 

Lula já dizia, tempos atrás, que o Congresso tinha 300 picaretas. Seria possível a aprovação de leis de interesse do povo por parte de políticos que, sabidamente, tinha processos contra eles trancados na Justiça? Os benefícios foram aprovados no Congresso supostamente em troca de pagamentos. 

Vieram a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O país foi tomado por obras que privilegiaram empreiteiras e estouraram os orçamentos. Enquanto isso, bancos cobram taxas de juros abusivas, numa campanha orquestrada com a mídia internacional e o sistema financeiro, solapando a dignidade de homens públicos que não ostentam riqueza. 

O país, fundamentalmente os jovens, se sentem desorientados, e protestam contra empreiteiros que têm a proteção de guarda-costas, e contra políticos que ocupam palácios porque o próprio povo os elegeu, mas que vivem na maior parte do tempo em orgias europeias. 

O povo protesta contra obras superfaturadas do Maracanã, contra o resultado de uma licitação que deu a Eike Batista - cujas empresas passam por grave crise financeira - o poder de administrar o principal estádio do Brasil. Estádio que deixou de ser dos pobres, com seus ingressos caros, e passou a ser dos próprios empresários. O povo protesta contra escândalos como os dos bancos PanAmericano, Econômico, da construtora Delta, contra tarifas do transporte público que oferece um péssimo serviço, contra a Cidade da Música, o Engenhão... 

E apesar de todos os indícios, sigilos bancários não são quebrados tanto de homens da iniciativa privada quanto de políticos que nunca tiveram a ficha limpa. Até no segmento religioso, seja ele de qualquer credo, se ouve ataques sem resposta do Poder Judiciário. 

No passado, o povo não tinha internet nem televisão. Com o mundo tecnologicamente avançado, o poder da comunicação é tão forte quanto o oxigênio. Pobres e ricos são dependentes dela. 

E o poder da comunicação é capaz de disseminar a indignação com desmandos, corrupção e opressão. O desencanto dos homens chegou ao Brasil, fazendo também chegar aqui as mesmas labaredas que incendeiam o Oriente.