Sem pauta | De homens e de bois

Conheci-o na última viagem, levando uma bezerrada de sobreano. Gado miúdo e pouco: umas trinta cabeças, se tantas eram. Miúdos também os dois vaqueirinhos que o acompanhavam; um deles, moreno forte, de bigo­dinho nascendo, portava, orgulhoso, um H.O. niquelado, arma de reduzida confiança, de percus­sor caprichoso e mascador. O ou­tro, avermelhado, preferia o facão. A lâmina, antiga, era Rogers, mar­ca de bem temperado aço inglês, guar­dava-a na bainha nova, macia, feita de couro de barriga.

Encontramo-nos na beira do Rio Paranaíba. Ele vinha dos lados de Santana, no Mato Grosso, e acampara em um altinho da barranca, nem bem atravessara o gado em duas viagens de balsa. Como só houvesse travessia na manhã a vir, e meu destino era o outro lado, aceitei sua sociedade.

Arrumados os baixeiros para ser­vir de cama ao lado do fogo, o boiadeiro esquentou na caçarolinha um pouco de licor de pequi e disse que era para os brônquios (“quente desce mais macio”).

— Cansei de comprar e vender boi, e agora já resolvi: levo essa bezerrada, paro. Acerto minha vida. Depois do que vi, faz três dias, nem Nosso Senhor Jesus Cristo me faz mais mexer com gado. Eu tive a certeza. Antes não tinha, era só uma desconfiança muito funda, que a gente vai tendo com o ar das coisas. Uma vaca parida que muge baixinho na orelha da cria, um garrote que chora quando você o arrasta pra castração, e os casos que a gente escuta.

— Já ouvi coisas de arrepiar, mas eu dava o desconto. Agora estou convencido de que são de verdade. Você sabe que boi suicida? Pois suicida. Conheci um vaqueiro do Piauí que me contou. Uma vez a seca estava braba, o gado saiu, buscando água — e o gado cheira água de longe — no rumo do sul. As reses iam caindo, de fome e secura, e a urubuzada, também faminta, nem esperava a morte. Baixavam sobre os bichinhos cambaleando, e picavam os olhos, os beiços, as partes.

— Daí passaram perto de um morro, que de um lado era uma penha só, muito alta, com pedregal bem embaixo. Não é que as criaturas fizeram esforço, su­biram o morro e se despencaram lá de cima? O vaqueiro jurou que viu aquilo, e que era uma tristeza: um a um, os bichos chegavam na ponta e davam um mugido sofredor, depois se ajoelhavam na beira, não saltavam não. Ajoelhavam, e escorregavam, pedra abaixo, até arrebentar lá no pedregal, num barulho surdo, feio.

— Os dois vaqueirinhos ouviam, os olhos arregalados. Um deles ali­sava a palha para o cigarro, o outro estalava os dedos.

— Nesse meu mexer com gado, eu às vezes tinha a impressão de que já conhecia uma rês. E — é aí que vou chegar, e você vai entender esta minha decisão — há um boi que me anda perseguindo há mais de quarenta anos. Por causa dele (quero eu lá mais saber de boiada?) vou morar na cidade maior em que puder. Acho que São Paulo. Eu estava pouco mais velho do que Lalu, esse morochinho aí. Trabalhava numa fazenda de Catalão, um garrote varou a cerca e eu fui atrás dele. Estava danado da vida com o patrão e com uma roxa que me tinha feito de besta. Lacei o boizinho, amarrei num pé de pau, quebrei o galho da aroeira, fiz manguara no jeito, e desanquei o bicho. Bati até não aguentar mais. Deixei lá, e só voltei no dia seguinte, com outros, para buscar. Pois é isso: de vez em quando, na vida, via um touro preto que outro, me olhando com certo jeito — e o garrote era preto, todo preto.

— Pois não é que agora, se não fosse por estes dois aí, eu não estava aqui para contar o caso? Fui ver uma boiadinha, perto de Santana, gado todo manso. Um boi carreiro, preto, velhão, me olhou de banda. Não fiz o negócio, e quando ia saindo da fazenda, topei com o bicho. Veio em cima do cavalo e os dois meninos aí é que fi­zeram barreira. Você pode não acreditar, mas esse boi é o mesmo de antes. Como gente, guardou o rancor da vingança.

O boiadeiro baixou os olhos para o fogo, e um dos rapazes fez, com o indicador, o círculo sobre a cabeça, para dizer-me que o patrão estava louco.