Sem pauta | Judas sem testamento

(Documento atualíssimo, que narra estranho fato ocorrido no Ano da Graça de 1844, transcrito com a ortografia atualizada).

Relato que fez ao reverendíssimo senhor bispo de Mariana o padre José Manuel da Ribeira, vigário da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Paraopeba, na segunda-feira depois da Aleluia do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e quarenta e quatro.

“Louvado seja Nosso Senhor:

“Levo ao conhecimento de Vossa Eminência Reverendíssima estranhíssimo fato ocorrido em nossa freguesia, nesta última Semana Santa. Para narrar a Vossa Eminência o acontecido, sou obrigado a voltar há mais de um ano, quase dois. Aqui na cidade e município de Nosso Senhor do Bonfim do Paraopeba houve, como sabe Vossa Eminência, combates e lutas políticas por ocasião da Revolução encabeçada por José Feliciano Pinto Coelho e Teófilo Benedito Ottoni. Quando foram vencidos os liberais, e aqui entraram as forças legalistas, houve como pode imaginar Vossa Eminência, muitas prisões.

“Não quero dizer a Vossa Eminência da justiça ou injustiça delas, posto que, homem de fé, sempre me comportei em obediência ao santo papa, aos príncipes da Igreja e à sua majestade imperial, nosso senhor dom Pedro II. Quando as forças legais entraram na cidade, elas foram guiadas por um tal Eusébio Fonseca Sorono, negociante de tropas, capangueiro de dentes de ouro, homem de miúdo comércio. Constava então que ele levou os oficiais do senhor general Caxias aos principais cabeças da Revolução aqui, em troca do emprego de recebedor das rendas aqui no município e comarca, posto que ele ocupou até as festas da Paixão de Nosso Senhor. Durante muitos meses, Eminência, ele passeou sua soberba e sua força por nossa comarca. A mim mesmo me ofendeu certa vez em que estive aqui, em Piedade, para visita aos pais dele (que são gente da melhor honradez), mas nem quero referir o ato a Vossa Eminência.

“Durante muitos meses mandou e desmandou. Os que ele denunciou, foram para a cadeia, beberam urina de cachorro e comeram angu de farelo e óleo de rícino; apanharam com cipó-de-boi e fizeram penitência, ajoelhados em contas de lágrimas de Nossa Senhora. Muitos perderam suas fazendas.

“Mas, como sabe Vossa Eminência, anunciou-se que S.M.I., em sua generosa e santa sabedoria, decidiu anistiar os rebeldes de Sorocaba, do Serro, de Santa Luzia do Rio das Velhas, de Queluz e do Bonfim. Então, desde que a noticia chegou aqui, no Bonfim, Eusébio Fonseca Sorono sumiu. Sumiu, mas não sumiu para longe. Veio para esta freguesia, viajando pela Serra do Rola-Moça, e se escondeu em um retiro da fazenda do pai, homem bom, como já fiz menção a Vossa Eminência.

“Na quinta-feira de trevas, quando eu pregava aqui de nossa capela, em que vim oficiar na Semana Santa, eu o vi, de longe, em uma besta pampa, na estrada que vai para os Borges. Na sexta-feira, eu soube depois, ele ficou meio escondido nos matos, olhando o cruzeiro, enquanto nós fazíamos a via-sacra. Por isso, o Neca, que Vossa Eminência conhece, de quando aqui esteve para a crisma, e os amigos dele estranharam quando ele apareceu, ajudou a fazer o Judas, e se prontificou para ficar tomando conta do arraial que eles montaram para a queima do traidor de Nosso Senhor.

“Quando o pessoal, com sono, foi para suas casas, imagine Vossa Eminência o que ele fez! Tirou o boneco da forca, cortou a máscara de pano, com os olhos, o nariz e a boca bordados por Sinhá Filó, enfiou na cabeça e na cara, botou as luvas do miserável inimigo de Deus e se enforcou no lugar dele.

“O demônio o ajudou, Deus que me perdoe, Eminência, porque ninguém deu pela coisa, até a tarde de sábado, quando o povo se reuniu para queimar o boneco. Neco sentiu a falta dele, Sorono, mas todo mundo sabia que ele andava esquisito ultimamente, depois que falaram em anistia, por isso não comentaram sua ausência. Quando jogaram azeite de mamona no Judas, e puseram fogo, e os panos incendiaram, houve o forte cheiro de carne queimada. Depressa, depressa, os pedaços de pano com fogo foram caindo, e apareceu o corpo de Eusébio Sorono dependurado no poste da forca. Houve um silêncio terrível, Eminência, as mulheres começaram a gritar, e eu, que estava a rezar meu breviário, saí correndo e cheguei a tempo de ver a corda arrebentar com o fogo e o corpo cair, estatelado no chão.

“Não deixei enterrar em terra sagrada. Falei com o pai dele que ia consultar a Vossa Eminência. Mandei que enterrassem provisoriamente, num terreno da fazenda da família. “Agora consulto a Vossa Eminência: devo ou não devo dar-lhe sepultura cristã?”

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