A tumba do gato

Por Maria Lucia Dahl

Aconteceu primeiro com o gato que morava comigo, depois que eu já era adulta. Pois quando criança, a casa enorme onde morava com a minha família abrigava vários deles, que eram criados pelas empregadas e os jardineiros, que também os enterrava quando morriam. Eram necessários por causa dos ratos que também habitavam os jardins. É claro que, como criança que eu era, me apegava a eles embora me entendesse melhor com os cachorros, que eram muitos e de muitas raças. Cada época tinha a sua raça referente: bassets, policiais, pelo de arame, boxer, cocker-spaniel. Foram muitos que habitaram a casa como atores principais enquanto os gatos faziam figuração.

Quando fui morar sozinha, tinha uma cocker castanha, chamada Zozô, que eu amava. Então, quando resolvi viajar pra Europa , deixei-a com um amigo que ela gostava muito. Mesmo assim, quando eu estava feliz da vida, em Roma, ele me ligou do Rio dizendo que a Zozô tinha morrido por sentir a minha falta. Então decidi não ter mais bichos, já que não existiam mais empregadas e jardineiros, até a minha filha crescer e começar a trazer animais pra casa, como toda criança: cachorros, gatos, tartarugas e canários! 

Restou só com um gato meu que foi ficando muito velhinho e começou a gritar à noite, coisa que nenhum até hoje tinha feito. Velhice pura, pois não estava doente. Levei-o a uma veterinária que brigou comigo porque chamei-o de vira-lata e me corrigiu, zangada.

- Não diga isso dele.

- Mas então respondo o quê, quando a senhora me pergunta qual é sua raça?

- SRD - respondeu a doutora, indignada.

- O que é isso? - perguntei espantada.

- Sem raça definida.

Pois bem. O SRD não tinha nada. Só velhice. Tipo:, chatiação, cansaço,falta de graça, depressão, enfim, aquelas coisas “simpáticas” que acontecem com a idade. Então gritam para se livrarem delas já que não fazem análise nem tomam anti-depressivo como a gente.

E já que não podia fazer mais nada por ele, deixei-o seguir o seu destino e morrer de velhice na porta lá de casa.

Passei outros bons anos sem gato até uma amiga pedir pelo amor de Deus pra eu ficar com um que nasceu na sua casa em Petrópolis e que ela não podia cuidar. Como estava com meu neto, não houve jeito de dizer não. Então o gato veio conosco e foi ficando, ficando durante muitos anos, até que, de repente, começou a emagrecer e gritar, deprimido como o outro SRD

- Esse gato está morrendo - disse um amigo da minha filha que veio nos visitar.

Olhei pro gato e vi, realmente, uma caveira, trêmula. Não adiantava leva-lo à veterinária onde ela diria que o que ele tinha era velhice, como o que dissera do outro.

Então saí de casa pra trabalhar e deixei-o no lugar onde estava, entregando-o ao seu próprio destino e, como quando voltei não o vi no jardim, perguntei ao amigo da minha filha se sabia dele

- Sumiu - respondeu ele. 

Procurei-o pela casa toda e não o achei. Então, conclui que seu destino talvez tivesse sido igual ao do outro, e pensei que ele também poderia ter ido morrer na rua, depois de procura-lo nos armários, gavetas e cômodas de toda a casa. E já ia dormir quando fui pegar água na geladeira e vi um embrulho de plástico imenso no freezer. Como estivesse arrebentando a porta da geladeira com o seu peso, decidi abrir o embrulho e ver se podia dividir aqueles alimentos pesados. Então rasguei um pedaço do plástico e vi as duas patas congeladas do gato esticadas com um rabo duro, espetado. Não quis ver sua expressão. Quase morri de susto, liguei pro amigo da minha filha que me contou que ela o pusera ali até poder enterra-lo no Parque Lage.

- No Parque Lage? Quando?

Então resolvi que eu decidiria o paradeiro do meu gato, coloquei-o novamente no saco plástico, lembrando-me de uma obra que estão fazendo em frente à minha casa, fui com o gato morto no saco , contei a história para o pedreiro que cavava um buraco no asfalto e pedi que o enterrasse ali. Imediatamente ele cavou mais ainda o buraco, colocou o corpo do gato dentro dele, uma enorme pedra em cima do buraco, e rindo muito, disse que o gato agora tinha um túmulo perfeito. Dei um dinheiro pra ele, que me agradeceu sorridente.

Então rezei pelo gato e deixei-o ali, entregue ao seu destino de SRD. Entrei em casa (que voltou ao seu antigo silêncio) e, rapidamente, tomei um rivotril pra não começar a gritar de depressão como o gato.