Um fim de semana dos anos 70
Primeiro fui assistir ao espetáculo Bandália, dos Dzi Croquettes, grupo que fez uma mudança radical na cultura dos anos 70.
Os homens entravam vestidos de mulher, de vestidos esvoaçantes mas com barba e bigode, num deboche memorável representado por bailarinos e cantores excepcionais. A eles se incorporou o bailarino americano Lennie Dale, que já tinha sido parceiro de Lisa Minelli.
Os Croquettes fizeram uma mudança radical nos textos humorísticos, danças e canções, assim como as Frenéticas, grupo de moças que também cantava, dançava, dando uma grande virada na minha geração.
Era a época da ditadura, e quando cheguei da Europa, pra onde fugi com meu marido, exilado, encontrei esse Brasil delirante e contracultural, e o mais engraçado é que não sabia que o Lennie Dale tinha morado na minha casa, quando eu estava fora e aluguei a casa para o meu amigo Rodrigo Argolo que o levou a tiracolo.
Tudo nos Dzi Croquettes era novo e, naturalmente, foram os primeiros gays a se imporem como tal sem desmunhecadas, mas, naturalmente, vestidos de mulher, pernas cabeludas e sapatos de saltos altos.
Bandália continua seguindo essa linha, com novos atores, jovens e ótimos dançarinos e cantores. Dos antigos, Ciro Barcellos, Bayard Toneli, além dos ótimos figurinos do Claudio Tovar.
Os Dzi realmente marcaram a vida de quem viveu essa época de mudança radical, no modo de agir, de vestir, de pensar, que fez o resto do mundo se tornar acadêmico.
Depois do show, subi para Petrópolis, e fui ver a exposição do pintor Aquila, entrevistado pela curadora Wanda Klabin, no Sesc Quitandinha.
Aquila também foi e é um revolucionário da pintura que está sempre criando coisas novas que mistura com as antigas conseguindo resultados surpreendentes.
Para mim, duas épocas fantásticas da minha vida também se misturavam ali na minha frente. As melhores que passei: minha infância em Quitandinha que se apresentava em cada lustre, cada porta, cada janela levando-me aos anos dourados, e a mudança generalizada que participei nos anos 70, desde a época hippie, cheia de movimentos radicais.
Adoro o velho e o novo, e fiz, imediatamente, uma “instalação” com a minha vida dos anos 70 com as histórias e pinturas do Aquila misturadas aos da minha infância e adolescencia espalhadas pelo cenário extravagante e hollywoodiano do hotel, de onde o que me sobrou de real foi um prato com o grande "Q", de Quitandinha, no meio.
De emocional, faz parte do grande mosaico que serve de cenário à minha infância querida que os anos não trazem mais.
