O quebra-cabeças

Raramente me senti pertencer a alguma coisa. Pertencer mesmo, inteiramente, no sentido  mais amplo da palavra. Ali. No duro. Na batata. Sempre fui em busca de mim mesmo e eram tantos "eus" que fui busca-los em várias turmas, vários países, sempre pertencendo e despertencendo a todos eles. O pertencer nunca me veio de encontro, assim, facilmente, de bandeja. Nunca encontrei a alma gêmea, mas parecida, nem a outra metade, mas muitos pedaços dela espalhados em aparentes  contrastes.

Encaixava com a minha família até o ponto que encaixava melhor com as babás. Comparecia às festas nos seus quartos, onde iam as outras empregadas da casa e também as da vizinhança e seus noivos eternos. Lá elas me mostravam os seus enxovais guardados em malas, acho que, para sempre.

Dividida entre a sala de visitas e o quarto de empregadas eu ouvia louvores a Carlos Lacerda numa e na outra declarações de amor a Vargas.

Foi também essa divisão que formou minha cultura musical: Jackon do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Dalva de Oliveira no rádio Telefunken do quarto de fora, Edith Piaf, Yves Montand, Frank Sinatra lá dentro. Tambem me deliciava  com mamãe tocando Chopin, ao piano e papai tirando “Bonequita linda” de ouvido, no violão.

Me enturmava com algumas colegas de colégio mas com pouquíssimas freiras e absolutamente nada com a repressiva instituição.

Em 68 mudei completamente, namorando um líder estudantil então pendi pras passeatas.

No exílio, de carona, me dividia entre os exilados políticos e a casa do embaixador Paulo Carneiro, onde conheci Di Cavalcanti, Murilo Mendes, Almeida Salles e a nata dos intelectuais, em Paris. Não pertencia à França e muito menos ao sistema de ditadura no Brasil.

Com a perda dos meus pais e dos privilégios, fiquei reduzida a alguns pedaços meus, e, com a nostalgia dos outros, fui fazer análise de grupo onde, finalmente, parecia pertencer a alguma coisa. Tinha encontrado uma família. Hoje vejo que o que fazia me dar a impressão de pertencer era a materialização da busca de mim mesma que se refletia no grupo, além do afeto. Pertenci também a alguns (muito poucos) homens, toda vez que me apaixonei. A paixão nos inclui automaticamente no Todo, numa sintonia direta com Deus. Mas, formando-se do nada, também se desfaz como veio estraçalhando-nos novamente em porções doloridas atiradas no vácuo.

- Vai procurar sua turma! Consolavam os amigos. 

- Mas aonde?

Achava que, como sempre, ela continuava salpicada pelo mundo afora, até que percebi, que ele, o mundo, tinha mudado. Estávamos vivendo, eu, e meus pedaços espalhados por ele, um momento histórico de reunião. O fim da fantasia. O início da vitória. O início de uma nova realidade que une  a sala de visitas da minha infância ao quarto de babá.

Meus pedreiros vêm trabalhar de carro, encontro gente rica no ônibus e entendi que, embora nossos ídolos não fossem mais os mesmos, já não vivíamos mais como nossos pais. E tive a incrível sensação de que o quebra-cabeças da minha vida, tinha, finalmente se convertido num colorido  e harmonioso mosaico.

Deus queira que o novo papa pense assim, o que duvido um pouco...