Moleques

Ontem fui ver o filme sobre a vida de Lincoln, que me tocou muito pela personalidade do presidente, incorporada pelo maravilhoso ator, Daniel Day-Lewis. O personagem e o ator são melhores do que o próprio filme, dirigido por Spielberg e meio cansativo no começo.

Antes ligava o nome do diretor a “Tubarão”, por exemplo, que fui ver sozinha, e me deixou arrepiada, na época.

Agora ligo o seu nome a uma peça, que fui ver em Nova York, cuja atriz era sua ex-mulher, Amy Irving, casada depois com o Bruno Barreto que estava na plateia do teatro e, de repente, não mais que de repente, a atriz olhou pra ele e disse no meio do texto que representava, cortando todo o seu sentido: “I love my Bruno!” o que chegou até a assustá-lo.

Olhei pra minha amiga, que também estava espantada, como a maioria da plateia, e acredito que o diretor da peça não tenha engolido bem essa intervenção da atriz, num texto tão diverso...

Mas, voltando ao Lincoln, cada vez que vejo histórias sobre racismo no mundo, sejam sobre negros ou judeus, fico indignada desde quando era pequena. A minha rua, em Botafogo, era cheia de “moleques”, expressão usada, na época, para designar meninos negros e mulatos. Os brancos não eram moleques, mas, desprezados apenas por sua pobreza.

Minha casa tinha um enorme gramado na frente, que atraía os “moleques” para jogar futebol, o que começava assim que conseguiam pular o muro da casa, e antes de serem ameaçados pelo jardineiro, português, com sua enorme tesoura de cortar grama, com a qual ameaçava cortar os seus pés até eles desistirem do jogo e saírem correndo pra rua. Esses meninos deviam ter a minha idade e eu me sentia triste com aquelas cenas que não entendia.

Já no Natal, minha avó que estava de acordo com o jardineiro, mandava fazer um lanche enorme pros meninos no jardim, que continuava a chamar de moleques, embora, convidados por ela, comessem numa mesa posta no jardim e depois dos bolos, ganhavam até presentes.

Adorava ver os meninos alegres comendo bolo e tomando Coca-Cola, e nunca entendi esse racismo brasileiro, cujos moleques podiam comemorar o Natal na nossa casa, mas que a filha de uma empregada, minha amiga pretinha, não podia almoçar com as minhas amigas brancas do colégio Sion.

Fiquei muito espantada uma vez, quando papai me disse que babá era preta. Eu não enxergava a cor das pessoas, mas tomava a palavra “preto” como xingamento. Por que, então, papai xingava a empregada que gostávamos tanto?

Só fui aprender sobre a escravidão no colégio, período absurdo da História, e também vi meninas chorando na classe, por que tinham sido chamadas de “judeias” pelas colegas, que nem sabiam o significado desta palavra racista que inventaram, confundindo, certamente com “judias, “num colégio que foi feito para a conversão dos judeus".

Mais tarde, na minha juventude, fiquei amiga de atores negros, como o Zozimo Bubul e o Pitanga, que trabalharam comigo em diferentes filmes, e só agora, este último veio me contar que nunca subiu no meu apartamento, nem no de outras amigas brancas e que apesar de amigo, só nos encontrava nas portarias dos nossos edifícios.

Não me lembrava disso, mas, certamente, ainda existia algum racismo nas famílias para que procedessem assim.

Também revi, num almoço, o ex-lavador de carros do meu prédio, que um dia me perguntou, naquele tempo, se eu me casaria com um negro. Respondi que se eu gostasse dele, casaria, o que o deixou super contente com a minha resposta. Veio me perguntar nesse almoço se me lembrava dele. Contou-me que era delegado, agora, e se chamava Deusdedith.

- Lembra? Perguntou de novo.

- Alguém pode se esquecer de uma pessoa chamada Deusdedith? Perguntei de volta.

Ri com ele, contente, pela vida ter mudado e hoje em dia os negros terem se tornado  afro-descendentes e delegados.