O tempo faz hora com a gente

Não me acostumo com esses novos tempos que, ou passam rápido demais ou demoram horas pra nos deixar fazer alguma coisa, como visitar o Vaticano, por exemplo, em Roma, onde hoje em dia as filas dão milhares de voltas ao redor da igreja, onde se espera os guardas revistarem os turistas como se fossem entrar num avião. 

Só que avião tem horário marcado pra sair e abre as portas, segundo o horário marcado. Já o Vaticano, não. Pode-se ficar ali até o corpo não aguentar mais continuar de pé, sem nenhuma possibilidade de descanso, num lugar em que, na época  em que morei  lá, entrava-se e saía-se quantas vezes se quisesse, caso tivéssemos esquecido  de ver alguma coisa imperdível  lá dentro.

E o que passa rápido demais, hoje em dia, é a compra de entradas para o cinema. Tem-se que comprar tudo pela Internet, não tem mais essa de chegar na porta e comprar. Tudo bem. Ótimo. Só que eu estava na Barra com meu companheiro e resolvemos ver um filme no Village Mall, e duas horas e meia antes do filme começar, já tinham acabado as entradas todas no cinema. Não só de “Amor”, nosso escolhido, como todos os outros!

Se chegássemos duas horas antes de qualquer filme, antigamente, podia-se ver a sessão de antes, quando o mesmo filme passava em todas as sessões, ou então sentar num barzinho antes do cinema, o que estava sempre programado pra se fazer depois comentando as cenas boas e as ruins. Agora tudo tem que ser programado com antecedência e não se pode olhar pra nada, de repente, como já fiz inúmeras vezes na vida e resolver entrar, para nos deliciar com alguma surpresa agradável que viesse ao nosso encontro.

O que não se pode é mudar de ideia. Sair, agora, exige uma programação anterior sem direito a mudanças, como uma espécie de casamento. Mas se a vida da gente é completamente inesperada, como se pode estabelecer fatos definidos, como se muitos outros não fossem ocorrer de repente?

 Então resolvemos passear pelo Village Mall, que graças a Deus é um shopping bonito e agradável, cheio de lojas lindas como a Tiffany´s, Gucci, Cartier, Armani e outras novas que eu nem conhecia, como a Langak, loja dinamarquesa,  onde se pode escolher várias peças e cordões para se montar colares, pulseiras e brincos na hora, e do jeito que quiser. São peças de uma incrível delicadeza e criatividade. Fiquei um tempão ali, brincando com os bichinhos de ouro ou de cristal e as correias de couro, que a vendedora trazia pra se formar uma joia. Esqueci da vida e de comer alguma coisa nos barzinhos vizinhos, já que não teve a entrada, que seria o filme.

Então voltamos pra casa e fiquei sabendo da morte da Adalgiza Colombo, minha ex-colega de colégio, um ano acima, no Instituto Princeza Izabel

Como é possível morrer aquela menininha que conversava e ria comigo no recreio?

Então, pra apagar essa imagem da morte, lembrei da Miss Brasil que ela foi, já bem mais velha e decidi que foi ela quem morreu, não a coleguinha de colégio, que para sempre viverá na minha cabeça de uniforme azul-marinho, no pátio florido do Princeza Izabel.