Cabelos!

Sou escrava do meu cabelo desde que me entendo por gente. Ainda criança pedia à babá pra enrolá-los e, depois, ficava encantando com a minha própria imagem de cachinhos dourados refletida no espelho.

Depois veio a adolescência enfatizando a vaidade, e junto com ela uma paixão escondida que nutria por um menino do ginásio. Em nome das duas, vaidade e paixão, passei a dormir todas as noites (ao menos tentava), de rolos, mesmo que eles puxassem o meu couro cabeludo, que os grampos o espetassem como uma coroa de espinhos e que vovó dissesse que eu ia acabar careca. Uma verdadeira tortura que eu suportava, contanto que os cabelos ficassem pra dentro, tipo “pagjem”, como se chamava na época. Tudo por causa da moda e do menino do ginásio, que chegava de moto,”nem te ligo” pra mim. Então eu voltava pra casa e falava sozinha, defronte ao espelho, em Inglês, como nos filmes da Metro, imaginando o motoqueiro do colégio se declarar: “I Love you...”

Bem, depois, com os anos 60, vieram os Beatles. Fui vê-los no Teatro Olympia, em Paris, e esperá-los na porta de saída para gritar de histeria, na chuva, no meio das outras tietes.

Daí em diante, os Beatles passaram a ditar a moda dos pensamentos, palavras e obras de todos os jovens do planeta. Daí começou o problema, por que cabelos crespos  naquela época eram sinônimo de palavrão e alisá-los, pra mim, era muito mais difícil que encrespá-los. Então eu, e todas as amigas de cabelos cacheados, começamos a passá-los a ferro, numa década 'pré-escova', ajoelhadas no chão do quarto de empregadas, em frente à taboa de passar roupa, com a mesma babá que um dia os havia ondulado, numa nova modalidade de tortura: a de alisá-los com o ferro quente. Depois se fazia uma “touca” no cabelo e colocava-se um pano por cima deles achatando-os para que não armassem. Repetíamos todo ano o mesmo ritual, e chegávamos ao´ponto, (eu e minhas amigas), de enrolarmos o cabelo no escurinho do cinema e só soltá-lo quando ia acender a luz. 

Um dia perdi uma paquera por que a luz acendeu enquanto eu tentava desprender o grampo. Minha amiga gargalhava e eu escondia o rosto no lenço, que por sua vez, tinha agarrado no brinco. Minha amiga morria de rir e eu escondia o rosto apavorada que o tal rapaz me visse daquele jeito. Ate hoje ele acha que lhe dei o bolo, faltando à sessão das quatro, que tínhamos combinado.

Depois, mais tarde, quando já era atriz, fiz uma peça viajando pelo Nordeste e não saía do refrigerado do hotel pros cabelos não encresparem com o calor e as gotas de umidade local.

O cabeleireiro do teatro perguntou se eu queria fazer a “rudilha”, depois do” mise-em-plis”

Levei um tempo até descobrir que “rudilha” era “touca”. E passei a temporada inteira de rudilha, dormindo de touca. Lugar quente era um problema pra nós, naquela época e mesmo Petrópolis que era frio, chovia muito e os respingos e umidade acabavam com a gente.

Metade dos passeios maravilhosos da época, perdi por causa dos Beatles e dos Rolling Stones, que vieram pra nos liberar de muitos tabus, mas não da forma ou fôrma obrigatória dos cabelos. Então veio a era hippie e resolvi adotar os cachos cacheados pra (escrava da moda, na época), não parecer careta. Mas me achava horrível. Gostava da bata indiana, da calça boca de sino, mas dos cabelos ondulados, forçava a barra pra tolerar.

Até que chegou a moda pós-moderna, quando cada um usava  o que bem entendia, do jeito que lhe desse na telha, numa gama de escolhas que ia da década de 20 ao século 21, então escolhi ficar lisa de novo, voltei a  enrolar o cabelo e usar touca.

Aí fui fazer uma escova no cabeleireiro e ele me perguntou se eu não preferia um alisamento japonês, definitivo. Disse que não. Detesto aquela coisa espetada de ponta seca feito Visconde de Sabugosa, e sobretudo qualquer coisa que seja definitiva.

Então o cabeleireiro ajeitou o piercing do nariz, fez um trejeito contrariado e disse que pra cabelo “bandido”, era a única solução. Perguntei o que era cabelo bandido e ele respondeu mal-humorado:

-É aquele, madame, que quando não está preso, está armado.