Cem anos de Rubem Braga

Cem anos de Rubem Braga! Como era bom fazer parte das festas dele naquela casa linda em Ipanema, com horta, árvores e jardins que a rodeavam. Lá dentro, uma mistura de convidados do pai e do filho, Roberto, como Fernando Sabino  e todos os frequentadores do restaurante Antonio´s contando aquelas histórias cheias de humor. 

Rubem adorava as minhas crônicas e me ligou bem mais tarde, quando comecei a fazê-las, pra dizer que eu era o Rubem Braga de saia. Contei pra um desses amigos do Antonio´s que respondeu: “não sei por que. Nunca vi você de saia, está sempre de jeans!”. Gostei tanto de ser o Rubem Braga de saia que, se preciso, poderia trocar todas as calças por vestidos. Foi também devido a ele que entrei como cronista pro Jornal do Brasil, num tempo em que a crônica andava em desuso, o que me fez inaugurar uma nova época, com crônicas sobre o cotidiano e humor. 

O Zuenir Ventura gostou delas e me deu força pra inaugurar uma nova profissão, a de cronista, que não era paga, no início, mas eu estava viajando pelo Brasil com a peça “Trair e coçar é só começar”, portanto, assunto é o que não faltava pra se falar do Acre a Porto Alegre numa viagem cheia de atores hilários e casos engraçados contados por eles e por nativos de cada porto.

Hoje em dia, além de cem anos passarem como se fossem 20, com senhores de 101 pedalando suas bicicletas pela Lagoa, a vida também ficou mais sem graça viver sem o Rubem, por exemplo, e os frequentadores de suas festas e do Antonio´s, que já se foram quase todos, e difícil também viajar com peças ou filmes por todo o Brasil.

O que se tem que conviver atualmente é com arrastões, tiros, crack, violência e mortes, a mais recente do pintor-ceramista chileno Selaron, que decorou as escadarias do Convento de Santa Tereza com pinturas e azulejos, transformando aquele lugar num point especial para turistas e mudando o seu nome para escadaria Selaron.

Passei um dia inteiro observando o seu trabalho surpreendente, subindo e descendo as escadas da Lapa, pra hoje ler no jornal que ele morreu carbonizado, no seu ateliê, não se sabe como nem por quê. No mais, são balas perdidas, roubos, furtos, mensalões. Então procuro uma coisa divertida pra se fazer nesse mundo cruel e encontro filmes brasileiros como o do Gonzagão e “O som ao redor”, por exemplo, e alguns estrangeiros como “O Ditador”, absolutamente cômico,  e depois, um chopinho na Cobal de Botafogo, pois a maioria das pessoas já se foi mesmo ou se dispersou, mas, graças a Deus, consegui resgatar algumas através do Facebook, onde continuo da vírgula, um papo de 30 anos atrás. 

Ainda bem que a tecnologia não nos mostra só os crimes e ameaças de final de mundo, no exato momento em que estão acontecendo, pela televisão, mas também, se soubermos aproveitá-la, ressuscita amigos que ainda nos fazem gargalhar pelo computador com o mesmo humor de nossas longínquas juventudes, quando nos conhecemos.