Eu quero ser turista

Turista segura qualquer onda. Tudo é divertido pra eles e faz parte da viagem, até ser incluído num dos 500 mil espectadores do show do Gilberto Gil e do Stevie Wonder numa praia deslumbrante mas grudados uns aos outros como numa prisão.

Cheguei a pensar em ver os dois artistas que amo, por que a minha primeira ideia é sempre o daquela jovem que eu fui, pronta para entrar em qualquer situação, como o show do Paul Mc Cartney que fui assistir há anos com amigos, no Maracanã,  onde o espaço estava tão cheio que só se podia ver o artista de pé, esticando o pescoço, o que me fez optar por vê-lo pela televisão colocada em cima do palco. 

E a saída do Maracanã parecia um arrastão onde nos carregavam pra onde queriam. Depois disso, foi a vez do James Taylor no Rock´n´Rio, que naquela época foi maravilhoso, com todo mundo dançando e cantando num espaço generoso, tempo em que o mundo não tinha encolhido com a quantidade de habitantes que foi triplicando, nem o Brasil  virado moda, fazendo todos os gringos virem para cá. 

Gente, se é pra passar por todos esses descalabros, por que não chamar os amigos pra minha própria casa, comprar umas biritas e ver tudo pela televisão? Mas, como a sabedoria só vem com a idade (dizem), foi o que fiz agora com o Stevie Wonder e o Gil, que pra falar a verdade nem foi tão maravilhoso assim. A parte do Gil foi excelente, já a do Stevie, que sempre amei, não me entusiasmou com suas novas músicas. Mas, toda essa falta de tolerância da minha parte, só existe aqui no Rio que é a minha cidade. Estive em Roma agora há uns meses e enfrentei, com meu namorado, uma fila quilométrica para entrar no Vaticano, eu, que quando morei em Roma, entrava e saía da Basílica como se fosse minha própria casa, na hora que eu queria. 

Agora, para se entrar na Basílica tem que se mostrar mil documentos e sermos revistados, "depois do atentado das Torres Gêmeas", disse o guarda, que examinava os turistas como na entrada de um aeroporto. Mas eu obedeci, não abandonei a fila nem fiquei de mau humor.

Aqui, hoje em dia, fujo da praia lotada dia e noite, onde passei a vida em Copacabana, em frente ao mar, onde assistia as tímidas danças pra Iemanjá, molhando de vez em quando os pés na onda do mar.

Esse ano fugi para Petrópolis, minha segunda cidade, deixando a vida me levar...

Ganhei um DVD da Maria Rita cantando as músicas de sua mãe, Ellis Regina e me surpreendi com sua voz e interpretação, seu repertório do qual faz parte a música: "Como nossos pais", do Belchior, uma das mais emocionantes de todas.

Nesse fim de ano, tivemos a benção de ver artistas maravilhosos em filmes e peças, como por exemplo o Gonzagão e Gonzaguinha, show do Fagner, Tom Zé e dos melhores músicos do Brasil e do mundo, tipo Tom Jobim. Por que será que nem nas rádios, que ouço no carro, toca Belchior, um dos autores e cantores mais talentosos do Brasil? Quanto a ele sumir e se recolher é uma opção dele e ninguém tem nada a ver com isso, mas por que não  transmitem suas músicas pelo rádio e televisão, é uma falha séria na cultura musical brasileira.

E pensando neste mistério inexplicável, resolvi passar minha roupa branca para usá-la à meia-noite, no Réveillon, entre amigos e um neto, na casa de Petrópolis, muito tranquila, sem onda nem festa de arromba...