M de morte na palma da mão

Passo por uma casa toda enfeitada por estátuas de Iemanjá, São Jorge, pombos brancos e outras coisas mais, ali na altura do Humaitá, chamada Casa do Mago, que me avisa com sua decoração kitch que, finalmente, depois de um trânsito cruel, estou chegando em Botafogo. 

Nos cartazes pregados nas paredes eles garantem trazer a pessoa amada de volta e fico pensando: será? Mas como?Algemada ? Então volto à infância e me lembro do Sana-Khan, vidente famoso naquela época, que lia, inclusive, a mão do Getúlio e que esteve lá em casa, quando eu era pequena, convidado por papai,  para ler a mão das visitas convidadas para uma festa.

"Quero que ele leia a minha mão", peço a minha irmã, enquanto a babá coloca meu pijama de flanela.

"Não se lê mão de criança", responde minha irmã. "As linhas ainda não estão formadas".

"A minha mão tem um M grandão desenhado nela", digo com a mão aberta estendida pra minha irmã.

"Ah, isso todo mundo tem, boba!",  responde ela. "É o M de morte, querendo dizer que todo mundo vai morrer".

Fico impressionada com essa terrível palavra: “morte”, lembrando dos bichinhos vira-bolas que eu, sem querer, matei ao fechá-los em uma caixa de vitaminas, causando-me uma culpa eterna. Rememoro o cachorro “morrido” que vimos na rua, em Nogueira, que não era mais cachorro, mas um bicho inerte, de olho vidrado, sem expressão, que não corria nem brincava, abanando o rabo. Lembrei também de uma velha morrendo numa ambulância perto de casa, na rua, que me arrepiou os cabelos, até minha irmã me tirar deste estado angustiante e sugerir:

"Vamos lá pro quarto que é perto da varanda onde está o Sana-Khan e deixar a porta entreaberta pra ouvir o que eles estão falando?"

Adorei a ideia, e depois de entreabrirmos a porta do quarto nos grudamos nela e ouvimos, excitadas, algumas fofocas em meio às consultas. Mas o mais estranho, sem dúvida, foi o vidente se recusar a ler a mão da Helena, uma amiga jovem de mamãe, por mais que ela insistisse, alegando cansaço.

Helena desistiu da consulta e voltou pra sala. Ouvimos, então, o vidente pedir à empregada que chamasse papai, o dono da casa. E quando ele chegou, disse-lhe que Helena não teria mais que seis meses de vida. Papai, então, levou o Sana-Khan pra sala e apagou a luz da varanda, colocando um ponto final no futuro de seus convidados.

Seis meses depois, quando estávamos em Nova York, mamãe recebeu um envelope negro, como se usava antigamente, uma forma delicada de se anunciar uma tragédia,  falando da morte de Helena.

Por pouco não estraga nossa viagem.

Agora os choques são diários e escancarados quando se lê o jornal,  e além do obituário,  atualmente, cheio de pessoas conhecidas minhas, ainda fica se sabendo com detalhes dos crimes de gente desconhecida, sem nenhum aviso prévio, assaltos de bandidos, mortes de políticos, crimes de time contra time de futebol, de pessoas no cinema, de crianças no colégio, deixando-nos estupefatos, mesmo sabendo que nascemos com um M de morte na palma da mão.