Referências da vida 

Li sobre o incêndio na casa do Jean Boghici, que conheço desde os anos 70. Encontrava-o em toda parte naquela época, quando se frequentava o Restaurante Antonio's, Bar Lagoa, exposições e mesmo nas ruas de Copacabana, era comum encontrar com ele. 

Então fui ver o que ele diz do fogo que pegou em sua casa, destruindo um espetacular Di Cavalcanti, Tarsila, Kandinski, Morandi, e outros quadros talvez um pouco  mais simplesinhos. 

Se foi um choque pra nós, imagina o que não foi pra ele, mesmo tendo sido pago pelo seguro, graças a Deus.

Então li na sua entrevista que ele estava arrasado, não só porque tinha perdido obras de arte raríssimas, mas porque ele era muito apegado a tudo o que tinha em sua  casa, que fazia parte da sua vida, das suas referências. Também sou assim.

Depois de trinta e tantos anos resolvi fazer um segundo andar na minha casa, pra abrigar filha e netos que vieram morar comigo. Então comecei a arrumar os objetos guardados em armários e estantes e comecei a viajar neles.

É claro que não tenho Dis, nem Tarsilas, muito menos Kandinskisi ou Morandis, mas tenho quadros que amo, como: Bernardelli, que foi do meu avô, junto com outros pintores acadêmicos, pinturas e gravuras de Mário Carneiro, Glauco Rodrigues e outros menos conhecidos que me acompanham desde a casa da minha mãe, assim como móveis e louças.

Sou completamente apegada a esse tipo de decoração com tapetes que também eram os mesmos até a obra começar e terminar de acabar com eles, fazendo-me comprar outros bem diferentes, infelizmente.

O único quadro que tenho, cujas referências são mais ou menos recentes, se pode se chamar de recente um presente que ganhei do autor há mais de vinte anos, é um quadro do Carlos Paes Vilaró, pintor que conheci na casa de amigos aqui no Rio e que fui procurar  quando estive em Montevidéu,  na cidade onde ele mora,  na casa em que construiu com as próprias mãos e que se chama Casapueblo, que virou museu, depois de hospedar Pelé, Toquinho, Robert de Niro, Brigitte Bardot e Alain Delon.

A minha, mais modesta, aqui no Rio, hospedou Jack Nicholson, quando a aluguei uma vez pro Rodrigo Argolo, decorador famoso nos anos 70, quando eu estava exilada, em Roma.

Vilaro escreveu também um livro super interessante, que virou filme, sobre o acidente de avião no Chile, onde morreu seu filho e muitos outros passageiros. Sobreviventes tiveram que comer carne humana dos mortos do avião.

Soube, depois de algum tempo, que o Vilaró alugou um avião sem destino, com o objetivo de encontrar os tripulantes do avião além do seu filho, e foi voando sozinho com o piloto, até dizer:

- É aqui. Eles estão aqui. Vamos saltar.

E estavam.

Vilaró é das pessoas mais interessantes que conheci na vida. 

Foi a Casapueblo que inspirou Vinícius de Moraes, que também se hospedou lá, a compor a música que eu mais cantei com minha filha, em Roma, quando ela era criança:

“Era uma casa muito engraçada

Não tinha teto, não tinha nada

Não se podia entrar nela não

Por que a casa não tinha chão”

Imediatamente essa música e Casapueblo começaram a fazer parte absoluta das minhas referências, com minha filha cantando a letra em italiano, sentada na fonte de Trevi, em Roma.