Mudanças

Sempre ouvi falar de uma ótima cabeleireira que existe em Petrópolis. Mas como, quando venho pra cá é pra não pensar em nada, nem roupa, nem cabelo, unha, e sim entrar na piscina quando não está frio, andar a pé, naturalmente, errando sempre o caminho de ida ou de volta, ver meus amigos da terra, tomar cerveja, ir à Pavelka, no final da serra, e mais tarde à Pizzaria Luigi, não penso em me arrumar e uso sempre os mesmos jeans meio furados por causa da cachorra  rotweiller que pula em cima da  gente, e vários suéteres diferentes que não dá pra usar no Rio.

Mas neste fim de semana uma amiga passou aqui em casa pra almoçar e contar da festa que sua filha daria na sua casa, à noite, da qual ela queria fugir. E como era dia de Olimpíadas, quando a população passa o tempo defronte à televisão, nós que somos chegadas a jogos, resolvemos passear pela cidade vazia, ver a exposição de orquídeas no Palácio de Cristal. E como minha amiga tinha marcado a tal cabeleireira famosa pra ela, resolvi aproveitar para experimentar sua escova. Mas nossos horários foram desmarcados por excesso de clientes esperando em fila, na porta. Minha amiga resolveu ir pra lá esperar também, pra não perder seu tratamento de cabelo. Concordei com ela e fomos as duas pra lá. Só que eu não sabia onde era “lá”. E quando “lá” cheguei não podia acreditar no que via, não por algum possível preconceito, ao contrário, pela admiração que  fiquei pela moça de 21 anos que abriu o seu salão, na favela onde mora, ajudada pelo pai que construiu outro quarto pra ela fazer o seu salão, frequentado por todo tipo de moças e senhoras  que passam por ali e voltam sempre, impressionadas com o seu trabalho perfeito e barato.

A moça ainda faz faculdade de comunicação, e cuida, sozinha, do filho de 4 anos. Acho uma maravilha pessoas de comunidades que agora se esforçam, no sentido certo, pra subir na vida, estudando, trabalhando e vencendo preconceitos.

Então, depois de um tratamento maravilhoso nos meus cabelos fui-me embora com minha amiga, desejando  tudo de maravilhoso pra essa vencedora, e ir  ver as  outras vencedoras do vôlei no  encerramento das Olimpíadas,  com direito a John Lennon, cantando “Imagine”  e Marisa monte interpretando as Bachianas de  Vila Lobos com voz , figurino e encenação extraordinárias.

 Gosto das comemorações, não dos jogos os quais não consigo nem prestar atenção, não sei se herança do colégio Sion, que nos obrigava a jogar uma coisa chamada barra-bola, no recreio, onde era proibido conversar com as colegas pra não ofendermos a Deus. Por que um papo sobre novela de rádio ofenderia a Deus? Talvez Deus achasse muito chato, mas se ofender, ainda não era a hora, como hoje em dia em que todas as crianças ligam a TV a qualquer momento pra ver tudo o que realmente deveria ser proibido, por violência, pornografia e mau gosto.

Pensava nisso quando a Eliete Ferrer, uma outra batalhadora, cuja luta eterna pelo povo brasileiro é uma das responsáveis também pela mudança das comunidades, que hoje   podem mostrar seu talento, como o dessa cabeleireira chique, e muitos outros, eliminando todo e qualquer tipo de  preconceito,  me convidando para a segunda tiragem do livro 68, a geração que queria mudar o mundo, na terça-feira, dia 14 às 20h, na PUC, escrito pela maioria dos participantes da luta contra a ditadura.

Espere por mim, Eli, por que, certamente, pela nossa constante vontade, já estamos conseguindo mudar o mundo em vez de apenas querer mudá-lo.