Mensalões e cascateiros 

Ligo a televisão e o 'caso mensalão', sobre um bando de políticos corruptos que roubaram o povo (roteiro banal que rola desde 2005 e volta agora depois de alguns réus terem passado week-ends na prisão para se encontrarem sozinhos com seus advogados e escreverem o outro capítulo da novela), é pior ainda que o primeiro, pois não tem ação e, além disso, todos repetem a mesma frase do texto: “ meu cliente é inocente, rapá!”.

A história do mensalão juntou-se, por coincidência, a uma outra mais moderna, e cuja falta de diálogo e argumentos são muito parecidos:  a história do bicheiro Carlinhos Cachoeira, e da corrupção de políticos ligados a ele, com um script igualmente  repetitivo.

Pensei que o som da TV estivesse desligado, tal a mudez dos atores, até que ouvi a namorada do Cachoeira, dona Vanessa Cascateira, uma linda atriz chamada para representar esse episódio da série, onde aparece linda e má, alegar que “os réus têm o direito de ficar calados”.

-Ca –la- da!  Como dizia o Chico Anysio em seu programa Chico Anysio Show, diretamente à sua mulher. Daí ninguém mais deu uma palavra atendendo aos seus direitos.

Então vi que não tinha jeito mesmo nem mudando  de canal, pois as novelas políticas são todas  baseadas num mesmo argumento e roteiro, a não ser uma, que o Adhemar de Barros escreveu, há muito tempo, com cartazes espalhados pela cidade que diziam: “Adhemar rouba mas faz”, numa época em que todos se escondiam no armário. Ninguem assumia ter roubado, nem mesmo o Adhemar, que dizia não saber a causa de terem colocado esse cartaz nas ruas. Por que ele? Realmente, aí, ele tinha razão. Por que só ele?

Naquela época, se roubava escondido, como hoje, e se era gay escondido também, o que agora não se é mais. Ficavam todos dentro do armário, ninguém saía, pois corriam o risco  de serem espancados no meio da rua, como aconteceu com alguns amigos meus que namoravam até políticos famosos mas continuavam “calados!” em respeito ao relacionamento, onde um podia estar de acordo à abertura  e outro não. Hoje existem até passeatas aplaudidas pelos espectadores em favor desses relacionamentos, finalmente considerados pela maioria, como normais.

A primeira lésbica que vi na vida era uma vizinha de Botafogo que se vestia de homem, de terno e gravata, pra não deixar nenhuma dúvida sobre o seu comportamento escancarado e agressivo e morava numa espécie de museu, cheio de cabeças reduzidas de índios e outras coisas esquisitas trazidas das viagens de seu pai, intelectual que, no fim da década de 40,  ainda usava fraque e chapéu.

A  minha infância abrigava pessoas de todas as idades e diferentes sexos nos seus armários meio bambos e transparentes. Pessoas que tinham nascido gays e não tinham como esconder suas vozes finas,  seus gestos afetados. Teve gente que até cometeu suicídio por causa do preconceito generalizado, como se alguém estivesse livre de terem um filho ou  uma filha assim.

Já, hoje em dia tudo é escancarado. Depois da Internet, acredita-se até em montagens de filmes que as pessoas fazem de gente famosa, aprontando o que há de mais sórdido na vida, pra se ganhar dinheiro.

Já os mensalões acontecem dia a dia, desde a  descoberta do Brasil sem nenhum preconceito contra eles. Mas assim como se abriram, de repente, os armários, quem sabe  a verdade também se rebelará, um dia, por algum motivo mais nobre,  saindo definitivamente do fundo do poço?