PSDB: de progressista a conservador

A crise política em curso no país tem impactado nos indicadores de preferências partidárias do eleitorado, embora seja difícil prever se as mudanças ocorridas se estabilizarão. Uma pesquisa do Datafolha, feita em meados de junho, evidenciou um crescimento da preferência pelo PSDB, agremiação que, desde 1994, tem sido a principal força política alternativa ao PT. Governou o país por dois mandatos sucessivos, entre 1995 e 2002, e seu candidato a presidente da República, senador Aécio Neves, teve um desempenho muito bom nas eleições de 2014, totalizando, no segundo turno, 51 milhões de votos, contra 54,5 milhões alcançados pela vencedora, Dilma Roussef. No referido levantamento, os tucanos reuniram 9% das preferências dos eleitores, sendo este indicador, até o momento, seu recorde histórico, inserido em um movimento de ascensão observado desde o início do ano, ao passo que, com o PT, ocorre o inverso, uma queda. Na pesquisa de fevereiro, 5% consideram o PSDB como seu partido preferido; em abril, foram 7%. Qual é o conteúdo da força dos ventos que vem gerando energia política no PSDB?

O partido tucano originou-se em 1988, no espectro ideológico progressista, de centro-esquerda, nas lutas pela redemocratização. As lideranças originárias do PSDB saíram das entranhas do PMDB para criar a nova agremiação. No segundo turno das eleições de 1989, o partido apoiou, um tanto quanto envergonhadamente, a candidatura de Lula, que disputou com Fernando Collor de Mello a Presidência da República. Desde o nascimento, deu sinais de que defenderia a modernização do capitalismo brasileiro, a perspectiva de construção de uma economia de mercado globalizada, competitiva, mas que comportasse uma rede doméstica de proteção social, algo próximo ao modelo espanhol da década de 80, sob a presidência de Felipe González. Tais ideias já se fizeram presentes no programa do candidato tucano Mário Covas à primeira eleição presidencial depois da que havia elegido Jânio Quadros, em 1960.

Foi rápida a incorporação do PSDB às teses neoliberais. Em 1993-1994, consolida-se a adesão dos tucanos à perspectiva de superação do legado da Era Vargas e às teses da economia orientada para o mercado, que serviram de base normativa e técnica para o Plano Real e para as reformas ou contrarreformas implementadas por Fernando Henrique Cardoso (FHC) 1 e 2. A espinha dorsal político-partidária da vitória de FHC nas eleições de 1994 foi a aliança de centro-direita entre PSDB e PFL (hoje DEM). Ao contrário do PSOE espanhol, o PSDB nunca teve vinculações orgânicas com a base social típica de qualquer partido da social-democracia, a começar pelos sindicatos das classes trabalhadoras. Era fundamentalmente um partido de lideranças políticas e elites intelectuais que se autodenominavam social-democratas, contando também com alguma base na sociedade civil. Até o Plano Real, o PSDB carecia de um alicerce social mais claro, consolidado e expressivo em termos de influência sobre as decisões do Estado e outros recursos de poder. Essa lacuna sociopolítica foi preenchida pelo apoio sistemático da burguesia financeira e dos rentistas, que foram os principais beneficiários das reformas implementadas nos governos FHC, sobretudo a monetária, a cambial, a fiscal, a financeira, a previdenciária e as privatizações. Talvez seja equivocado, dadas certas características estruturais do capitalismo globalizado, reduzir o conjunto das reformas como sendo de interesse exclusivo dos rentistas e financistas, mas esses foram os que hegemonizaram politicamente aquilo que Nicos Poulantzas chama de bloco no poder. 

Na política, o PSDB deparou-se com a oposição do PT, partido de orientação social-democrata e socialista democrática, com forte enraizamento nos sindicatos e em diversos movimentos sociais. O PT denunciou acerbamente a orientação das reformas defendidas pelo PSDB, criticando os interesses privilegiados aos quais serviam as políticas públicas nos governos FHC. Os pífios resultados apresentados na atividade econômica, infraestrutura, produção, emprego, renda e proteção social contribuíram para desgastar a gestão PSDB e para a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002. 

O relativo sucesso dos governos petistas, principalmente Lula 1 e 2, mas, em alguns aspectos, também em Dilma 1, com respaldo de importantes empresários do setor produtivo, no combate à pobreza, na expansão das políticas sociais, na promoção do emprego, na valorização do salário mínimo e na manutenção da estabilidade macroeconômica desnorteou o PSDB. O tucanato ficou sem discurso e apostou no moralismo contra a corrupção, na exaltação do mercado e de uma suposta “eficiência administrativa” tucana, contraposta às irregularidades supostamente exclusivas do PT, evidenciadas a partir do mensalão e, desde 2014, na Operação Lava Jato. 

A guinada desenvolvimentista de Lula 2, a partir do final de 2008, em resposta à crise internacional, com ampliação do crédito público, redução dos juros, papel mais ativo das empresas estatais, crescente formalização do trabalho, ganhos salariais diretos e indiretos, sustentada socialmente nos trabalhadores, no subproletariado, na classe média baixa empreendedora e emergente e na burguesia industrial, deixou estratos das classes médias tradicionais e modernas, a burguesia financeira e os rentistas um tanto quanto não identificados e incomodados com as políticas de inclusão social do governo. Ascendeu, então, entre esses setores, por iniciativa da grande mídia, o discurso liberal antiestatizante e moralista, próprio dos que veem no intervencionismo a guarida da corrupção e da gastança fiscal. Os petistas passaram a ser chamados, por motivação agonística, de “petralhas”. 

Diante das dificuldades do governo Dilma 1 prosseguir nos avanços verificados em Lula 1 e 2, emergiram as manifestações de junho de 2013 e, com elas, a disputa política em torno de quem representava as heterogêneas demandas das ruas. A dinâmica das lutas políticas conduziu o PSDB, a partir de então, cada vez mais, à direita, afastando-se do centro, como se nele houvesse baixado o espírito da antiga UDN lacerdista.  Assim, vai emergindo um tucanato conservador, ouvido e voz do povo das ruas, com um discurso moralista e tecnocrático, ao agrado de frações da classe média descontentes com o pretenso bolivarianismo chavista que estaria sendo implementado no Brasil pelo PT.

Nas eleições de 2014, a candidatura presidencial do PSDB, encabeçada por Aécio Neves e tendo Aloysio Nunes Ferreira como vice, encampou claramente o discurso à direita, defendeu entusiasticamente o liberalismo econômico e relacionou o escândalo de corrupção na Petrobras ao suposto “estatismo” do PT, importando e nacionalizando o discurso ideológico da Guerra Fria. O inimigo, no Brasil e na América do Sul, seria o bolivarianismo venezuelano, sua versão lulo-petista e seus aliados mais próximos, Cuba e Bolívia. Esse discurso tucano-direitista-conservador foi apoiado por personalidades folclóricas da extrema-direita, como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) e o Pastor Everaldo (PSC-RJ), que se candidatou à Presidência da República e se comportou, na campanha eleitoral, como linha auxiliar de Aécio Neves. Todos esses defenderam, já em 2014, a proposta conservadora de redução da maioridade penal.

Após a derrota do PSDB nas eleições de 2014, delinearam-se duas linhas de ação no interior da agremiação. Uma é liderada por Aécio Neves e pelo PSDB mineiro, que defende investir nos meios que levem à abertura de processo de impeachment contra a presidenta Dilma, seja por abuso de poder econômico durante a campanha, fraude eleitoral, desaprovação das contas governamentais pelo TCU etc. A outra é encabeçada pelo PSDB paulista, mais especificamente por Geraldo Alckmin, e defende a construção de uma agenda positiva que sustente uma eventual candidatura do governador paulista à sucessão presidencial. A ala de Aécio Neves, que é pró-impeachment ou a favor da redução do mandato de Dilma pela via da impugnação de sua vitória eleitoral pelo TSE, pega carona nos movimentos de direita e extrema-direita, que se manifestaram massivamente em todo o Brasil em março e abril de 2015, endossando discursos raivosos e apelativos na esperança de representar as ruas. Além disso, tem apoiado ações no Congresso, sob a liderança de Eduardo Cunha, visando criar dificuldades fiscais e políticas para o governo Dilma. 

A guinada ideológica à direita foi mais cruamente implementada pelo governador tucano reeleito pelo Paraná, Beto Richa, que justificou a intensa repressão policial aos professores da rede estadual, no primeiro semestre desse ano, alegando que os grevistas estariam a serviço do PT e de sindicatos esquerdistas. Por sua vez, os paulistas moderam no discurso de oposição a Dilma e enfatizam a busca da construção de um modelo político de centro-direita liberal, que contemple os setores populares beneficiados pelos governos do PT, mas que, em decorrência das complicações econômicas e das sucessivas denúncias de corrupção, paulatinamente retiram o apoio aos petistas, sem, entretanto, ter algum alinhamento alternativo. 

Enquanto os tucanos pró-impeachment alimentam-se exclusivamente do antipetismo crescente na sociedade, que não se limita mais às classes médias, conseguindo também certo apelo entre os mais pobres, ressentidos com as recentes dificuldades econômicas, os tucanos do PSDB paulista investem no ressurgimento de uma espécie de social-liberalismo, como alentado pelo governador reeleito Geraldo Alckmin, em seu discurso de posse em 2015. 

A atual conjuntura é incerta e ninguém pode prever o que ocorrerá. Até mesmo a estabilidade do PSDB enquanto principal oposição é relativa, dadas as investidas públicas de lideranças do PMDB ou por uma ruptura com o governo Dilma ou pelo lançamento de uma candidatura de oposição ao PT em 2018. Há, efetivamente, uma crise política no Brasil. No movimento dessa crise, embora ainda os resultados não estejam encerrados e definidos, o PSDB, que surgiu progressista em 1988 e caminhou para a centro-direita em 1994, vem percorrendo, desde 2014, uma trajetória à direita e conservadora, que busca se legitimar na atenção ao clamor das ruas e de outros segmentos do eleitorado. (Novamente agradeço ao meu aluno Felipe Maruf Quintas pela colaboração. Ademais, estou em mudança temporária para o Reino Unido, volto em 15 dias).

Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador das relações entre Política e Economia.