Avaliação do governo Dilma: prioridade é a economia

A mais recente pesquisa de avaliação do segundo mandato da presidenta Dilma Roussef, divulgada no último final de semana pelo Datafolha, evidencia que sua impopularidade aumentou em relação ao levantamento feito em abril: 65% dos entrevistados avaliam que a gestão é ruim ou péssima. Apenas 10% dos eleitores consideram o atual mandato presidencial ótimo ou bom. A principal explicação para o aumento da rejeição popular à gestão Dilma 2 está no desempenho da economia.

No primeiro mandato, a taxa mais alta de aprovação a Dilma ocorreu na segunda quinzena de março de 2013: 65% avaliaram-na como ótima ou boa e 27%, regular. No levantamento de 28 de junho daquele ano, no calor das manifestações de rua daquele mês (que representaram a primeira grande corrente de virada da conjuntura no primeiro mandato), a taxa de ótimo/bom caiu para 30%, enquanto a de ruim/péssimo, que havia sido de 7% em março, passara para 25%. No entanto, como os que, então, atribuíram à presidenta uma avaliação regular somavam 43%, 73% aprovavam, ao menos moderadamente, seu governo. Esse nível de aprovação moderada acima de 70% se sustentou até dezembro de 2014, quando foi de 79%. Mas, em fevereiro do ano em curso, a aprovação caía para 55%; em março, 37%; abril, 40% e, agora, 34%. Ou seja, desde março, a reprovação é majoritária.

Os 79% de aprovação moderada em dezembro de 2014, antes do início do segundo mandato, se sustentaram mesmo no contexto de realização das primeiras prisões de executivos das empreiteiras no andamento da Operação Lava Jato. Na ocasião, 84% dos entrevistados sabiam da ocorrência das prisões e 68% deles consideravam que Dilma tinha alguma responsabilidade em relação à corrupção na Petrobras. Para cerca de metade dos entrevistados, ela conseguia mostrar que tem comprometimento com o combate à corrupção, pois a percepção era de que seu governo investigava mais e punia as irregularidades como nenhum outro.

Assim, apesar dos crimes na Petrobras, após as eleições de 2014, 50% alimentavam a expectativa de que o novo governo seria ótimo ou bom e 26% acreditavam que ele seria regular. Apenas 21% previam uma gestão ruim ou péssima do governo federal. Não havia, então, preocupação relevante com o desemprego. A situação mudou bastante nos últimos seis meses. Ao invés da esperança, há pessimismo. Hoje, 73% preveem aumento do desemprego.

Os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) referentes a maio contabilizam um saldo negativo de 115 mil vagas formais, o pior para o mês desde 1992. Só em março desse ano o salto foi positivo, mas totalizando somente 19.282 vagas. Entre os mais pobres, com renda familiar mensal de até dois salários mínimos – e sabe-se que a maioria deles votou em Dilma –, 63% consideram que serão os mais afetados pelo ajuste fiscal. Se em fevereiro 6% achavam que o principal problema do país era o desemprego, hoje esse dado subiu para 11%. Além do desemprego, os entrevistados temem a queda do rendimento salarial. Em todo o caso, na comparação com abril, a expectativa negativa em relação à situação econômica como um todo caiu de 60% para 53%. Mas seja contrastado que, em outubro de 2014, o otimismo predominava: 44% previam uma melhora na situação econômica, 33% criam que o quadro ficaria como estava e 15% anteviam a piora.

A percepção geral do desempenho do governo, cujo centro de gravidade está na economia, é a chave da questão. Se o país estivesse envolvido em problemas de segurança nacional, o comportamento do governo em relação a essa matéria fundamental poderia ser relevante também, mas não é o caso. Então como explicar que o desemprego não está sendo visto como o problema prioritário, pois os 11% de respostas indicando-o como principal problema nacional situam-no em terceira posição, atrás da saúde, 22%, e da corrupção, 21%? Provavelmente, uma explicação passa pelo fato de que saúde e corrupção também têm a ver com bem-estar, conceito que envolve múltiplas dimensões, no centro delas, a econômica e a social. Isso é mais claro para a saúde. Porém, ainda que sejam necessárias avaliações rigorosas e haja também o efeito recessivo do ajuste fiscal, tornaram-se públicas, nos últimos seis meses, informações pertinentes ao impacto da Operação Lava Jato na deterioração da economia, não só por meio da redução dos investimentos na cadeia da Petrobras, a maior empresa do país, que mobiliza, por exemplo, a indústria naval, mas em relação às grandes empreiteiras, que conformam uma cadeia específica, a construção civil, fornecedora de serviços não apenas para a indústria de petróleo.

Mas o aumento da percepção da importância da corrupção como problema nacional tem a ver, também, com a instrumentalização política que a grande mídia e outras forças oposicionistas fazem da Operação Lava Jato. O empenho da grande mídia não é com o mais que necessário combate à corrupção em geral, mas com a apropriação política dessa irregularidade criminosa envolvendo petistas e outros governistas. Em 2014, essa apropriação serviu de arma e munição contra o PT, o governo Dilma 1 e a candidatura da presidenta à reeleição. Em 2015, a apropriação visa a continuar na ofensiva política de criminalizar o PT, deteriorar a imagem pública do governo Dilma 2, promover a agenda neoliberal como única alternativa viável de políticas públicas e minar o terreno de uma eventual candidatura de Lula às eleições presidenciais de 2018. Fosse a grande mídia interessada em combater a corrupção, o público teria mais informações sobre a Operação Zelotes da Polícia Federal, por exemplo, que investiga um astronômico caso de sonegação fiscal, envolvendo a bagatela de R$ 19 bilhões. De qualquer modo, é lamentável que o PT e forças do governo Dilma 1 tenham se envolvido em irregularidades.

Do otimismo predominante até o final de 2014 ao pessimismo atual, a economia sofreu o impacto da Operação Lava Jato, do ajuste fiscal recessivo, enfim, da crise de confiança. Já abordei em outro artigo nessa coluna, com base em Kalecki, que, em um sistema econômico tipicamente liberal, o nível de emprego depende da confiança dos empresários, que funciona como um regulador da taxa de investimentos. Se o gasto público passa a substituir o mecanismo da confiança, a burguesia perde capacidade de influenciar as políticas públicas.

Há uma ofensiva para que a grande burguesia, hegemonizada pelas finanças, recupere o controle do Estado. O governo Dilma, em expressiva medida, está capturado por essa ofensiva no que diz respeito à política fiscal e monetária. O voluntarismo fiscal de Dilma 1, adotado como tentativa de substituir a imprescindível política macroeconômica desenvolvimentista, mostrou seus limites econômicos e políticos, pois o crescimento não veio, mas sim a oposição ao gasto público mantenedor do emprego. O impacto econômico e político da corrupção na Petrobras também contribuiu muito para o governo Dilma 2 estar na situação em que se encontra. Não se trata de ser contra o gasto público anticíclico, mas de como fazê-lo. Sem concertação desenvolvimentista, não há desenvolvimentismo, assim como política macroeconômica e política industrial têm que operar em harmonia. O problema é que a ofensiva das principais forças antigovernistas não é desenvolvimentista, é neoliberal. Não à toa, a previsão para 2015 é de PIB negativo.