Brasil promete fantasia, cobra devolução e irrita voluntários em festa 

Foram muitas luzes, cores, brilhos, sorrisos, maracatus, índios e voluntários com samba no pé no ato que deu uma amostra do Brasil para o mundo durante a Cerimônia de Encerramento da Olimpíada de Londres. Os voluntários são unânimes em afirmar que foi um momento único e especial. Só teve um problema: na saída do Estádio Olímpico, foram informados de que as fantasias, inicialmente prometidas como recordação, teriam de ser devolvidas.

Teve gente que acatou a decisão e, embora muito chateada, deixou a fantasia lá mesmo. Outros optaram por levá-la embora mesmo sem autorização. "Me senti muito mal de fazer isso, parecia que eu estava roubando a roupa", conta o tecnologista médico paulistano Sérgio Ferreira Guimarães, de 37 anos, que era um dos maracatus. "Por outro lado, não achei justo, depois de tanto esforço, que não pudéssemos ter nem uma recordação daquele momento."

Guimarães estava bastante animado e realmente acreditava que poderia levar a fantasia pra casa. Ele participou da Cerimônia de Abertura, no ato que homenageou o NHS (National Health System, o sistema de saúde pública do Reino Unido) e recebeu a fantasia de presente da organização. "Imaginei que seria a mesma coisa. Até porque sempre nos disseram que seríamos responsáveis por nossas fantasias, o que pode levar a uma interpretação de que elas seriam nossas. E mais: a fantasia foi feita sob medida. Que utilidade teria pra outra pessoa?", indaga.

O paulistano Friedrich Zenzen, de 31 anos, era mais um maracatu. "Fiquei sabendo que poderia participar da Cerimônia de Encerramento na escola de samba que frequento aqui em Londres. De cara, fiquei super animado pra participar", diz. Ele só ficou chateado de ter de levar a fantasia embora sem autorização. "Acabei deixando minha calça e minha camiseta lá. Fui embora com o short e a camiseta de lycra que usava debaixo da fantasia", conta. "Ainda bem que agora vão dar as fantasias para todos. Que bom que deu certo, porque ontem (domingo) foi o melhor dia da minha vida", comemora.

Segundo os voluntários, houve um clima de revolta após a notícia de que as fantasias deveriam ser devolvidas - ainda mais porque quem tinha participado das apresentações representando o Reino Unido foi presenteado com as roupas. "Não foi 'jeitinho brasileiro' não, porque tenho um amigo inglês que também se revoltou e levou a dele pra casa", diverte-se Guimarães.

Ele ressalta que gostou muito de participar de ambas as cerimônias, mas que as diferenças de tratamento foram muito grandes. "Enquanto o (cineasta) Danny Boyle falava diretamente com a gente e nos defendia, eu jamais vi o Cao Hamburguer e a Daniela Thomas; só fiquei sabendo que eram os diretores do ato brasileiro quando li o programa."

Outro lado

A reportagem do Terra entrou em contato com a Cerimônias Cariocas, a empresa que organizou a apresentação brasileira na cerimônia de encerramento, e foi informada por e-mail de que houve problemas de comunicação. "Os voluntários foram informados de que receberiam as fantasias no fim da cerimônia, mas isso foi mal comunicado. Foi daí que surgiu toda a confusão e tristeza", explica Julian Hill, diretor do departamento de Cast.

Segundo ele, era preciso reunir todas as fantasias após a apresentação para que fosse feito um inventário, além de determinar quais voluntários gostariam de ficar com as suas. "Nem todos os participantes querem a fantasia, e é preciso definir claramente quem gostaria de ficar com ela. Isso poderia ter sido feito antes, mas infelizmente não foi", admite. "Houve confusão e falhas na comunicação, mas não houve desonestidade", completa.

Logo após responder ao questionamento da reportagem do Terra, às 18h18 (horário de Londres), a equipe da Cerimônias Cariocas entrou em contato com os voluntários, às 18h20, agradecendo a participação e informando que as fantasias estarão disponíveis para serem retiradas entre 20 e 25 de agosto - além de um certificado de participação e de uma camiseta.

Outro casal que participou da cerimônia e conversou com a reportagem pediu não ser identificado após receber o e-mail da organização. "Eu peguei a minha fantasia, mas minha namorada ficou sem a dela", reclamou o participante. "Todo mundo ficou chateado porque nem um 'obrigado' nós ouvimos." Após receberem o e-mail, disseram que estão contentes por poder recuperar a fantasia da moça - que participou da gafieira - e o restante da fantasia dele (o enfeite de cabeça usado pelos dançarinos que representaram o maracatu, que foi deixado pra trás por ser pesado e grande).