Seleção joga para quebrar tabu de 24 anos

De um lado, a principal meta é chegar a uma final olímpica depois de 24 anos. Do outro, receber dispensa de um serviço militar rígido que pode atrapalhar a vida profissional. Brasil e Coreia do Sul se enfrentam nesta terça-feira, às 15h45 (de Brasília), no Old Trafford, em Manchester, em um jogo que promete alta dose de tensão pelo aspecto esportivo para os sul-americanos, e pessoal para os asiáticos.

Como os brasileiros têm as carreiras encaminhadas ou já consolidadas, uma derrota terá pouca interferência profissionalmente. Por outro lado, eles vão ter de lidar com a tristeza de uma eliminação e com as críticas dos torcedores. Mas, acima de tudo, carregarão a marca de terem fracassado como as gerações anteriores na tentativa de encerrar o tabu de o país nunca ter ganhado um ouro no futebol.

A última vez que o Brasil esteve perto da conquista completa 24 anos em 2012. Seis anos antes do tetracampeonato, Bebeto e Romário ainda eram garotos talentosos que prometiam acabar com o eterno tabu nos Jogos de Seul de 1988. Comandaram o time até a final, mas amargaram a prata após derrota para a União Soviética. "Não podemos ser cobrados pelo passado", argumenta Mano.

Agora, quem carrega o peso pelo ouro inédito é a geração de Neymar e Oscar. Se naquela ocasião o Brasil passou por Argentina e Alemanha Ocidental até ser surpreendido pelos soviéticos, em 2012 o País tem um caminho sem seleções de peso no cenário internacional. Por mais que o técnico Mano Menezes e seus jogadores valorizem Egito, Bielorrússia, Nova Zelândia, Honduras e agora Coreia do Sul, o torcedor não vai perdoar a perda do ouro em um caminho sem a presença de adversários tradicionais. México e Japão disputam a outra semifinal.

Os sul-coreanos lidam com uma pressão de outra natureza: uma medalha olímpica garante a dispensa do serviço militar obrigatório no País. Os jovens do país precisam reservar dois anos de suas vidas até completarem 30 para trabalharem para o exército. Do grupo que está na Inglaterra, nenhum jogador cumpriu a obrigação. O serviço militar significa um período de salário baixo, condições extremas, sacrifício familiar e carreira praticamente interrompida. O exército possui um time que disputa torneios na Coreia do Sul, mas os jogadores são impedidos de deixar o país até encerrarem a obrigação.

Por maior que seja o simbolismo da medalha olímpica, a dispensa militar traz benefícios práticos para os sul-coreanos. É ter a chance quase única de prosseguir a vida naturalmente sem a preocupação de participar de uma guerra contra a vizinha Coreia do Norte ou perder uma oportunidade de trabalho irrecuperável. Para o grupo que está na Olimpíada, é a segunda chance, já que nos Jogos Asiáticos 2010, praticamente com os mesmos jogadores, o time parou na semifinal. No evento continental, o país premia só quem conquista o ouro com a liberação.

"Infelizmente se depender da gente espero que eles continuem fazendo (serviço militar). De coração, é um sonho que temos conquistar esse ouro. Querendo ou não isso que nos motiva. É claro que é uma relação à parte a questão do serviço militar, mas temos que fazer nosso trabalho", disse o capitão Thiago Silva. Caso perca do Brasil, a Coreia do Sul ainda tentará o bronze para garantir a dispensa militar de seus jogadores.

Em campo, ofensividade x velocidade

Doze gols marcados em quatro jogos, mas vulnerabilidade na defesa. O Brasil chega às semifinais da Olimpíada entusiasmado com o poder de fogo e preocupado com o excesso de gols sofridos. Foram cinco até aqui, o que fez o técnico Mano Menezes quebrar a rotina de rachões nas vésperas de jogos e comandar um treinamento tático na segunda-feira.

A principal preocupação é com o lado esquerdo da defesa, formado por Marcelo e Juan. Mais inexperiente do grupo, o zagueiro tem mostrado insegurança, como no segundo gol sofrido contra Honduras. O goleiro Gabriel, recém-promovido a titular, será mantido e conta com a confiança de Mano.

Apesar de não divulgar a escalação com antecedência, o técnico não deve fazer mudanças no time. Destaque contra Honduras, Leandro Damião tentará ampliar seu número de gols. Até aqui foram quatro, um a mais do que Neymar, o jogador mais participativo do Brasil no torneio.

Do outro lado, a Coreia do Sul enfrenta o desgaste de ter decidido o jogo contra a Grã-Bretanha nos pênaltis após prorrogação. O capitão Thiago Silva esboçou uma avaliação do time que, além de eliminar os donos da casa, têm mostrado um futebol dinâmico e bem disputado.

"A gente observou de 10 a 15 minutos do jogo passado. Eles têm uma qualidade e velocidade muito grande, principalmente no contra-ataque. Mas o time que marca no ataque também tem suas deficiências, assim como a Seleção Brasileira. Sabemos os pontos fortes e fracos. Estamos mais preparados do que nunca", avisou.