Possível saída de Scheidt expõe declínio da vela brasileira em Olimpíadas 

O destino da vela brasileira em Jogos Olímpicos é um tanto quanto incerto. Após a conquista da medalha de bronze de Robert Scheidt e Bruno Prada na classe star na Olimpíada de Londres, em 2012, o país deverá ficar sem a dupla em 2016, nos Jogos do Rio de Janeiro. E pior: o surgimento de novos atletas da modalidade em classes olímpicas tem rareado, e até mesmo a volta de Scheidt é dúvida na vela.

Quem explica a situação é o experiente Claudio Biekarck, medalha de bronze na classe lightining dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara em 2011. Chefe de delegação da vela na Olimpíada de 2012, Biekarck lembra que os Jogos de 2012 são os últimos da star, e que apenas uma aprovação do Comitê Olímpico Internacional (COI) poderá incluir a classe nas competições de vela do Rio de Janeiro daqui quatro anos.

"Se a gente não tiver a star na Olimpíada, ele vai ter que se adequar a outra classe", explicou Biekarck. "Vai depender de uma questão politica, de colocar uma 11ª classe na Olimpíada", completou ele, afirmando não saber dos planos de Scheidt, 39 anos, para o futuro.

Em Londres, o Brasil pode ter o segundo pior desempenho da vela nos últimos 30 anos. Com o bronze conquistado por Scheidt e Prada, a delegação do País na modalidade supera apenas a campanha da Olimpíada de 1992, em Barcelona, quando retornou sem pódios. A última chance de evolução neste resultado é com a dupla Ana Barbachan e Fernanda Oliveira, que disputa a classe 470 feminina.

Ainda assim, a avaliação da participação de Scheidt e Prada é positiva. "Na realidade, eles entraram como favoritos, mas a gente sabe como é Olimpíada, a conversa é diferente. Depende muito do desenrolar do campeonato. Eles tiveram um segundo dia de competição muito ruim (nono lugar), que pesou no final. A regata da medalha foi uma regata difícil, já sabíamos que ia ser difícil", analisou Biekarck, comemorando a quinta medalha de Scheidt em Jogos Olímpicos. "A gente não pode falar nada. Foi um resultado muito bom".

A medalha de Scheidt e Prada, no entanto, foi uma exceção na campanha brasileira da vela em 2012. Das sete classes com brasileiros, sendo seis já encerradas, apenas em outra classe o Brasil conseguiu chegar à regata da medalha: na RS:X masculina, com Ricardo Santos, o Bimba, que foi nono colocado geral. Nas demais, Bruno Fontes (laser) foi 13º, Patrícia Freitas (RS:X feminina) foi 14ª, Jorge Zarif (finn) foi 20º e Adriana Kostiw (laser radial) foi 25ª.

"A vela como um todo sempre dependeu de alguns talentos individuais, e o Scheidt na star tem domínio amplo. Isso vem em virtude do número reduzido de velejadores que a gente tem, e nem todos têm a possibilidade de fazer uma campanha de dedicação total. É uma situação que não é muito fácil para qualquer um fazer competições internacionais", diz Biekarck. "Mas a renovação tem que começar nas outras classes. Começa na optimist (de 7 a 15 anos), depois na juventude, depois para as classes olímpicas", completou.

Em suas declarações, Claudio Biekarck apontou um nível elevado da competição olímpica e defendeu a preparação feita por Scheidt e Prada, assegurada pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e pela Confederação Brasileira de Vela e Motor (CBVM). O velejador afirmou ainda não ver problemas na atual gestão da CBVM, presidida por um interventor do COB, Carlos Luiz Martins Pereira e Souza.

"Simplesmente a Confederação está sob intervenção do COB. Tudo tem que passar pelo COB. Não é uma relação complicada. Simplesmente é uma situação que se criou na Confederação, e o jeito que se deu para a vela conseguir alguma coisa foi assim", afirmou. "A gente tem que dar graças a Deus que teve a intervenção e pode continuar contando com apoio", completou.

Com Carlos Luiz Martins Pereira e Souza à frente da CBVM desde 2007, a vela brasileira conquistou uma medalha de prata (star, em 2008) e dois bronzes (470 feminina, em 2008, e star, em 2012). "A gente não tem autonomia para criar as coisas sozinhos, mas foi a única maneira que a gente conseguiu tocar a Confederação de forma adequada", disse o chefe da delegação da vela na Olimpíada de Londres.