"Pelo investimento feito, o Brasil deveria ter o dobro de medalhas"

Ex-membro do COB critica administração das confederações esportivas

O desempenho do esporte brasileiro nas Olimpíadas de Londres tem uma contradição interessante. Ao mesmo tempo em que o número de medalhas em 2012, em dez dias de competição, é maior do que o de Pequim em 2008, a sensação é de que o esporte brasileiro poderia conquistar muito mais. Esse é o foco de Alberto Murray Neto, membro do Comitê Olímpico Brasileiro(COB) durante 12 anos. 

Crítico veemente da gestão de Carlos Artur Nuzman à frente da confederação, Neto não hesita em diagnosticar a ineficácia do modelo olímpico do Brasil. "O Brasil deveria ter o dobro de medalhas pelo investimento que foi feito no esporte olímpico, levando em conta também o número de habitantes do país. Foram R$ 2 bilhões, fora os patrocínios. Dinheiro não falta, o que falta é a boa gestão desse dinheiro", declarou.

A Grã-Bretanha, por exemplo, tem 38 medalhas conquistadas até agora em Londres, contra 47 no total em Pequim. A anfitriã de 2012 é usada como termômetro para o Brasil. Neto não acredita que o país será uma potência olímpica em 2016. "A Inglaterra sempre teve uma estrutura incrível. E desde que a Olimpíada foi anunciada, o investimento nos esportes foi feito de uma forma correta. Para construir uma nação vencedora no setor leva-se, em média, 15 anos. Não há mais tempo hábil. Acredito inclusive que em quatro anos haverá uma involução, porque teremos atletas em todas as modalidades. Como formar atletas em modalidades nunca representadas pelo país em uma Olimpíada? É impraticável", alerta.

Como, então, elaborar um projeto que concilie a sustentabilidade econômica e o resultado no esporte? Para Neto, existe apenas uma solução possível: o investimento no esporte de base, difundido nas escolas e com uma estrutura compatível com o esporte de alto nível.

"O Ministério do Esporte tem de ser comandado por alguém que entenda do assunto. A preocupação com o esporte de base, nas escolas, é fundamental. As confederações que ganham mais deveriam reverter parte do dinheiro nas confederações menores. Só assim poderemos criar uma nação esportivamente consistente. Não é mais possível sobreviver apenas das conquistas de alguns atletas de ponta, surgidos com mais talento e sorte do que investimento". conclui.