O discurso ao papa Francisco que ainda ecoa após a JMJ

Esta semana completou dois anos de um dos encontros que mais marcaram minha vida: o encontro com o Papa Francisco. Por isso, deixo como sugestão para o leitor desta coluna o discurso na íntegra que pronunciei no Theatro Municipal durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013,

“Santo Padre, sua benção.

Acredito que todos se sentem emocionados e honrados por estar neste fraterno encontro, mas, vendo o olhar de cada um e cada uma aqui presentes, acredito que todos estejam mais calmos do que eu.

Saúdo a Dom Orani, nosso Arcebispo, que tanto trabalhou para que a Jornada Mundial da Juventude acontecesse aqui no Rio de Janeiro. Assim saúdo a todas as autoridades religiosas aqui presentes. Deixo meus comprimentos às autoridades civis e me alegro em ver tantas personalidades que juntas o acolhem com tanto carinho.

Eu me chamo Walmyr Junior, tenho 28 anos e participo da Pastoral da Juventude da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Sou fruto do casamento de Márcia e Walmyr e compartilho essa alegria com minha irmã Isabela Cristina, que aqui está presente.

Por ser morador da favela Marcílio Dias, no Complexo da Maré, e ser órfão de pai e mãe, acredito que tinha tudo para fazer parte das estatísticas e ser mais um jovem até mesmo exterminado por conta da violência de nossas cidades.

Sempre presenciei, no local onde moro, o tráfico de drogas utilizando-se da juventude como mão de obra barata. Quando usei drogas pela primeira vez senti na minha pele as dores da juventude marginalizada pela dependência química. Superei essa fragilidade quando recebi o incentivo da minha paróquia a fazer uma experiência de voluntariado na comunidade paroquial. Desde então decidi reescrever minha história. 

Foi o desejo de descobrir o sentido da minha vida que me levou a traçar novos rumos na minha história. E agora me alegro em poder dizer que, com uma bolsa de estudos, eu me formei como professor de história na PUC-Rio, universidade administrada pelos jesuítas aqui no Rio de Janeiro.

Quero dizer que para mim é uma honra poder representar a sociedade civil, e, em nome desta sociedade, poder aqui falar. Santo Padre, tenha certeza de que eu nunca pensei que receberia tamanha honra. Depois de convidado, ao pensar no que poderia dizer representando a sociedade civil, me veio à mente uma certeza: eu também sou sociedade civil com todas essas pessoas que aqui estão, com todas essas pessoas cujo empenho tem procurado transformar nossa cidade e nosso país. Aqui, Santo Padre, encontram-se pessoas que colocaram seu conhecimento e seus sentimentos, seus dons e habilidades, suas vidas e toda sua esperança, para que, neste mundo, exista cada vez mais paz, justiça, esperança, concórdia e reconciliação.

Ser porta voz da sociedade civil é um desafio para mim, pois estamos diante das câmeras, e através delas, falamos ao mundo!Sim! Falamos também a todos os cantos do continente digital, por essas lentes que inibem nossa privacidade e nos tornam pessoas tão expostas e tão públicas. Pena que também através delas sejam escondidas tantas incoerências e desigualdades, tanta pobreza e morte, tanta miséria e infelicidade.

Junto comigo, trago a vida de todos os meus irmãos que, por diversas maneiras não puderam e não podem experimentar a alegria que sentimos hoje. Destaco os inúmeros jovens que sucumbiram de inúmeras formas. Trago por exemplo, a lembrança dos jovens que foram exterminados aqui bem perto, nos arredores da Igreja da Candelária. Já são 20 anos, mas as lembranças deste fato não se apagam de nossas memórias. Trago aqui os jovens que, no início deste ano, na busca de diversão, foram vitimados por um incêndio na cidade de Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul. Trago os jovens dependentes químicos e moradores de rua, que, por mobilização de muitas pessoas, são peregrinos e participam desta Jornada. É bom vê-los entre nós!

Trago também os jovens causadores das inúmeras formas de violências, que são esquecidos e, num ciclo que parece interminável, tornam-se igualmente violentados. Eles também eles são meus irmãos! Eles são nossos irmãos!

Mas, Santo Padre, não trago comigo apenas tristeza e lembranças dos meus irmãos e irmãs vitimados pela violência. Trago os jovens que sonham com um novo amanhecer, que constroem um mundo novo, que partilham suas vidas, ainda que, muitas vezes, sem uma referência para se espelhar. No Brasil, os jovens foram recentemente às ruas e reivindicaram seus direitos para terem uma vida digna. Sou pequeno diante dessa multidão.

É por essa sede de “vida em abundância”[1] que tenho a esperança de um dia poder ver as pessoas se amando e se respeitando ainda mais, e ver os homens e mulheres, crianças e adolescentes, idosos e jovens, juntos construindo a civilização do amor.

Nosso cenário globalizado faz emergir novos rostos pobres em nossa sociedade[2]. Rostos sem direitos de ter direito, como o jovem Jesus Cristo, preso na cruz, um jovem rosto com um projeto de vida marcado pelo amor e pela solidariedade[3].

Há um tempo atrás, eu perguntava a Deus porque a desigualdade e a violência existiam. E, em Deus, encontrei a resposta: porque amar o próximo está tão démodé, tão fora de moda.

Para mim Santo Padre, esta resposta sobre o amor fora de moda, não representa uma afirmação, mas sim uma provocação. Olhei para a minha história e, mesmo sem meus pais, fui amado pela minha família. Eu me via amando as pessoas, eu me via lutando pela liberdade e pelos direitos para a juventude, ou seja, o amor não estava fora de moda, porque eu amava o próximo. Nunca quis somente conseguir um emprego estável, terminando ai meus ideais. Não queria apenas completar meus estudos e ser feliz. Eu sempre quis mudar a minha vida mudando a vida de outras pessoas. Esta é para mim uma tarefa constante: ser útil, amando e sendo amado. Este é para mim o sentido de uma vida em sociedade.

Alegro-me que, esta Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, deixe um Legado Social, que o senhor abençoou nesta última quarta-feira. Alegro-me que este legado ultrapasse em muito os limites daquele local que o senhor visitou. Como o senhor sabe, temos ali uma rede de muitas pessoas e entidades que desejam unir suas forças e integrar seus dons e, assim unidos, transformar vidas, assim como a minha um dia foi transformada.

Termino repetindo meu agradecimento por estar aqui representando nossa sociedade, diante de tantas pessoas muito mais preparadas do que eu e com histórias de vida tão cheias de testemunhos para lhe falar. Se, porém coube a mim aqui estar, coloco minha vida, meus dons e tudo o que possuo e sou para ser útil à transformação dessa realidade social de nossos jovens. Isso eu assumo com a mesma esperança e utopia que levaram Francisco de Assis e Inácio de Loyola a dar suas vidas por Jesus. Esses santos jovens nos levam a assumir com força e coragem a missão no dia a dia de nossas existências.

Santo Padre, abençoe-me, abençoe nossa juventude e abençoe a todos nós !!”

 

* Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ. 

[1]Jo 10, 1-10

[2] AP 416

[3]Ap 402