Aranha está um passo à frente de Pelé

O racismo é uma questão estruturante das relações de poder no nosso país. Ele não se dá apenas pela questão biológica em si, mas nas relações sociais estabelecidas sob esta ótica, ou até mesmo justificadas pela visão fenotípica. O debate racial ganhou visibilidade no último período devido à entrada deste na agenda política do país, e dos avanços das ações afirmativas.

Com isso, vemos ser resgatada na sociedade brasileira a afirmação da identidade do povo negro. Hoje, o número de negros e negras que se auto-declaram como tal chega a 51% da população brasileira. Vamos garantido com essa afirmação identitária a defesa dos nossos direitos diante de uma conjuntura política e social que tende a julgar o lugar do povo negro na história do Brasil.

O caso de racismo que envolveu a torcida gremista e o goleiro Aranha (jogador do Santos) ganhou tanta repercussão que preferi não me pronunciar até hoje. O fato é que ao pensar inúmeras vezes sobre o caso, percebi que a grande mídia tentou tirar do goleiro do Santos o direito de se sentir ofendido por uma injúria racial. Eu, na condição de militante, não posso me permitir a silenciar diante deste fato heroico do jogador.  

A sociedade brasileira está acostumada a naturalizar a violência e, junto com essa lógica, naturalizar o racismo institucional. Este é utilizado como ferramenta de manutenção dessa sociedade que não só mata, mas deseja banir a população negra dos espaços de sociabilidade. 

Voltando o caso do jogador Aranha, entendo que ele não se precipitou em denunciar em meio à partida de futebol o caso de racismo, como o ex-jogador Pelé afirmou. Aranha garantiu que a voz do negro, que é impedido de ocupar os mais variados espaços, ecoasse nos mais distintos cantos do país e do mundo. A voz do goleiro Aranha retrata o dia a dia do negro que não consegue um emprego ou um salário descente, de quando não tem acesso a educação, saúde, moradia, lazer e tantas outras necessidades básicas, por causa do preconceito existente na sociedade. 

Essa catarse de violência que a torcida do Grêmio protagonizou faz do oprimido o seu próprio opressor quando o oprimido se intimida.  O ex-jogador Pelé é um exemplo disso. Por sua fama, poderia ser um dos mais respeitados heróis do povo negro no Brasil. Mas Pelé prefere estar na condição do capitão do mato. 

Pelé disse que Aranha se precipitou em querer brigar com a torcida e que, "quanto mais se falar, mais vai ter racismo". Essa fala alimenta uma parcela da sociedade que quer ver o negro com uma alma branca. 

Aranha foi chamado de ‘macaco’ e ‘preto fedido’. Depois foi ironicamente chamado de ‘branca de neve’ e foi xingado de ‘viado’, vaiado durante o aquecimento e também a cada vez que encostava na bola durante nova partida entre os dois clubes, desta vez pelo Campeonato Brasileiro. Pelé afirma que já foi xingado de inúmeros nomes pejorativos, mas não entende que se calando colabora na manutenção do racismo vigente. 

Queria falar para o Pelé, e para quem compactua com ele, que quando você não toma uma atitude como a do jogador Aranha, você naturaliza o racismo no futebol. Não é normal chamar de ‘macaco’ um jogador, um pedreiro, um professor ou um profissional de qualquer área pelo fato de ele ser negro. Chamar um homem ou uma mulher com esses termos racistas é tirar de nós a humanidade. É dar sentido a uma falsa moralidade alternativa que vigora na sociedade. 

Queria dizer para o Pelé que militância é luta e luta é resistência. Resistir é preciso para continuar avançando nas transformações de nosso país. Por isso que afirmo que Aranha está um passo a frente de Pelé.  Aranha coloca à tona a valorosa história de décadas de luta e dor de muitas pessoas cuja razão de suas vidas foi lutar contra o racismo.

* Walmyr Júnior é professor. Representante do Coletivo Enegrecer no Conselheiro Nacional de Juventude - CONJUVE. Integra Pastoral da Juventude e a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.