"Lutamos contra um inimigo comum: a desigualdade", diz Dilma ao Papa

Presidente não cita a presença de autoridades dos três Poderes durante discurso

Em seu discurso de saudação na abertura da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Palácio Guanabara, sede do Governo do Rio, a presidente Dilma Rousseff destacou os projetos sociais do seu governo e pediu que o Papa Francisco se aliasse na luta contra a desigualdade.  "A participação de Vossa Santidade agregaria mais condições para criar uma ampla aliança global contra a fome e a pobreza, uma aliança de solidariedade", afirmou.

Na abertura de sua fala, Dilma se dirigiu ao Papa como Vossa Santidade, mas não fez referência pessoal a nenhuma das autoridades presentes, dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, como é de costume em solenidades oficiais. Vale destacar que recentemente a relação entre os poderes ficou estremecida, com interferências mútuas. O fato de Dilma não se referir ao chefe do Judiciário, Joaquim Barbosa, e aos presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros, levanta questionamentos, a não ser que tal procedimento se justifique pelo fato de a solenidade não estar sendo feita a um Chefe de Estado.

A presidente também destacou o papel do Governo do Estado e da Prefeitura na realização da JMJ, mas não citou o papel de Dom Eugênio Sales, que iniciou o processo da vinda da Jornada para o Rio de Janeiro quando fez a solicitação em carta ao então Papa Bento XVI, que respondeu que não poderia negar um pedido seu.

Discurso

Dilma falou ainda dos recentes protestos no Rio, enfatizando que a população cobra melhorias para a sociedade. "Nós, brasileiros, somos de fé, ela é parte indelével do espírito brasileiro. Falo da crença que temos em melhorar nossa vidas, de que o amanhã pode ser melhor. Podemos tornar nossa realidade casa vez melhor. Isto foi o que moveu os recentes  movimentos nas ruas do Brasil. Democracia gera desejo de mais democracia, inclusão  social gera cobrança de mais inclusão social e de mais qualidade de vida. Todos os avanços que conquistamos estão só no começo, nossa estratégia de desenvolvimento sempre vai exigir mais", afirmou, destacando ainda o papel dos jovens neste processo. "A juventude brasileira tem sido protagonista neste processo, e quer melhorias. Os jovens exigem respeito, ética e transparência, querem que a politica atenda a seus anseios, querem viver plenamente. A juventude brasileira está engajada por uma luta legitima, por uma nova sociedade."

A presidente falou ainda que era uma honra para o povo brasileiro receber o Pontífice, "em se tratando do primeiro Papa latino-americano", e que os jovens brasileiros estão acolhendo de braços abertos os peregrinos de todo o mundo. "Sua presença no Brasil nos oferece a oportunidade de renovar diálogo com Santa Sé. Sabemos que temos diante de nós  um líder religioso sensível aos anseios do povo por justiça social. Seu sacerdócio entre os mais pobres se reflete no nome Francisco. Lutamos contra um inimigo comum: a desigualdade", disse.

Dilma destacou ainda um discurso do Papa Francisco feito em maio, quando o Pontífice manifestou a preocupação contra as desigualdades e a globalização da indiferença, "que deixa as pessoas insensíveis ao sofrimento do próximo". "Compartilhamos e nos juntamos a esta posição. A estratégia de superação da crise econômica centrada em medidas de austeridade golpeiam os mais pobres e os jovens, que são as principais vítimas do desemprego."