Crítica | O PODER E A LEI | L.A., ensolarada e caótica

No centro de O poder e a lei, adaptação do livro homônimo de Michael Connelly, está um advogado alfa, conhecedor de todos os meandros e malandragens dos tribunais, especialista em tirar de encrencas quem vive de procurá-las. Seu escritório é o banco traseiro de um sedã preto, ele fala rápido, sempre direto ao assunto. E o assunto? Grana, sempre. E viva, de preferência.

Há mais ou menos 15 anos, Matthew McConaughey mostrou que sabe interpretar como poucos o advogado idealista solitário. Basta olhar para sua atuação em Tempo de matar – lado a lado com Samuel L. Jackson, duelando com Kevin Spacey – para identificar em sua performance uma confluência de outros personagens semelhantes: o alcoólatra destemido de Paul Newman em O veredicto, o herói ético de Al Pacino em Justiça para todos, por exemplo. McConaughey reorganiza todos esses num só, agora no mordaz e manipulador Mick Haller.

Haller sabe como funciona o esquema nas rua e como fazer (e investir) grana devidamente embalada em envelopes recheados. Acostumado a livrar membros de gangue de motoqueiros do xilindró, ele recebe uma dica de um rato de tribunal (John Leguizamo) sobre um cliente de alta classe (grana), preso por agredir uma mulher e se dizendo, claro, inocente. O faro para problemas se aguça. Haller sabe que um ricaço não é exatamente um cliente em potencial e que o trabalho pode trazer-lhe (e trará) problemas.

Para dar equilíbrio, O poder e a lei precisava de uma dama. A ex-mulher (agora amiga e adversária nos tribunais) de Haller é interpretada por Marisa Tomei. Uma vez em cena, é difícil para quem assiste não esboçar um sorriso de satisfação, por mais tímido que seja, ao ver uma criatura tão linda e luminosa como Tomei. Não satisfeito, o diretor Brad Furman, um talentoso iniciante, adiciona William H. Macy (sempre competente), Josh Lucas (digno de nota) e Bryan Cranston (conhecido aqui pela série Breaking bad). O resultado é incontestavelmente acima da média.

Evocando Raymond Chandler e James Ellroy, O poder e a lei, na parte que lhe cabe, refunda o noir americano nos limites asfixiantes de Los Angeles, ensolarada e caótica, bandida e classuda.