Desilusão, danço eu, dança você

No esquema ‘Cisne negro’, mas agora de maneira cômica, o grupo Dissídio Coletivo mostra, sem dó nem piedade, as desventuras dos baliarinos clássicos

O badalado Cisne negro deixou muita gente de queixo caído ao mostrar os tumultuados bastidores universo da dança. Teve espectador que achou exagerado, mas solistas do Teatro Municipal garantem que é isso mesmo: há inveja, gula, luxúria, ira, soberba, preguiça e avareza. Ou seja, todos os sete pecados capitais, como mostra o espetáculo Lado B, que estreia hoje no Centro Cultural Correios, no Centro.  Só que, desta vez, não haverá tantas lágrimas como no premiado filme de Darren Aronofsky – a obra, apresentada pelo grupo Dissídio Coletivo, é uma comédia dançada. 

 – O negócio  não é mole, não – admite a bailarina Laura Prochet, que divide o palco com Bettina Dalcanale, Monica Barbosa e Karen Mesquita, todas integrantes do corpo de baile do Municipal, além de Manoel Francisco. – A gente lida com arte e com a vaidade o tempo todo. Mas  o nosso espetáculo é bem mais leve que o  filme Cisne negro. Há humor. Tem a bailarina “gulosa”, que quer todos os papéis para ela; a outra, preguiçosa, está mais a fim de ir à praia do que dançar... E por aí vai...

Com direção, roteiro e coreografia  João Wlamir, ensaiador do Municipal e jurado do programa Se ela dança, eu danço do SBT, Lado B tem sua trama  centrada nos ensaios de um espetáculo  sobre os sete pecados capitais. Sob a tirania de um coreógrafo alucinado e de uma voluntariosa  maître de balé – a russa  Madame Tchersvasky – as quatro bailarinas mostram o avesso do universo etéreo que se imagina da dança clássica.

– Estou há 30 anos nesse meio. Já vi muitas intrigas e obsessões que o público não conhece – frisa Wlamir. – Neste espetáculo, não sobra para ninguém, nem para a plateia e nem para mim mesmo. Eu fiz as coreografias e as bailarinas reclamam que ela é medíocre o tempo todo, por exemplo. Mas  eu sou assim: exponho o que sinto cruamente, não tenho papas na língua,  e tem gente que me odeia por isso. Aliás, quem se enxergar naquelas bailarinas certamente vai sair do teatro meio mordido.    

Lado B conta com participações especialíssimas: o jovem talento do break e do street dance  John Lennon da Silva, revelação do programa Se ela dança, eu danço, e Cláudia Raia (a voz em off que representa os pensamentos de todos – dos artistas e até espectadores). A atriz e bailarina tem profundo conhecimento do universo retratado – com todos os seus requintes de crueldade. 

– Já vi gilete dentro da sapatilha, pé na frente para a gente tropeçar ou mesmo vaselina (esse último foi na Argentina) – lembra Cláudia, que dançou profissionalmente naquele país e nos EUA. – Em Lado B, faço as voz em off e ajudo na interpretação. Nesses espetáculos, elas viraram bailatrizes. 

Cláudia admite que não falta vaidade nas coxias e sets de televisão, mas diz que é diferente no mundo da dança. 

–  É um universo muito mais frágil e delicado – conta. – Você pode perder seu papel a qualquer momento. É como um atleta, tem que estar sempre atento à condição física. 

O grupo Dissídio Coletivo é antigo: nasceu em 1987, com o desejo de bailarinos clássicos do Municipal de fazerem um trabalho diferente, mais ligado à dança contemporânea, sem deixar de lado o grande nível técnico. Desde então, montaram espetáculos como A.M.O.R (1993), Sagração (1995), Rio  24 horas    (1997), Cores brasileiras (2002) e Uma em quatro (2009/2010), com participação de Ana Botafogo. Também fizeram um série de apresentações na Europa.

 – A gente sempre tenta conciliar as turnês do Municipal com as do Dissídio Coletivo, alternando os dois trabalhos – explica Laura, que, em 2007, dançou um versão reduzida de Lado B no evento Solos de dança, no Espaço Sesc. – Agora, por exemplo, terminamos a temporada de Giselle, e apresentamos Lado B antes da estreia do programa Roland Petit (coreógrafo francês, com L’Arlesienne e Carmen. 

Apesar de ninguém ali fazer concessões com as picuinhas entre colegas, a mensagem do espetáculo, garante João Wlamir, é positiva.

– A gente deixa cair o pano da hipocrisia, mas também garante que faria tudo aquilo de novo – conta o diretor. –esmo com toda mesquinharia, tudo vale a pena, no final. 

Centro Cultural Correios, Rua Visconde de Itaboraí , 20, Centro (2219-5165). 5ª a dom., às 19h. R$ 20. Duração: 50 minutos. Até 5 de junho.