Deonísio da Silva: Educação: da lousa, pela cópia, ao tablet

Segundo estatísticas do Ministério da Educação (MEC), 17% dos jovens são universitários. O Plano Nacional de Educação (PNE) previa que em 2010 esse número fosse de 30%. O novo PNE traçou por meta que 50% dos jovens entre 18 e 24 anos estejam cursando uma faculdade até 2020.

Em resumo, temos que recuperar os 13% que perdemos e a essa taxa acrescentar mais 20%. Tal como nos cursos superiores, o problema não está mais na entrada, está na saída. E naturalmente na qualidade do que se ensina e se aprende. Apenas 50% dos estudantes do ensino médio se formam no período regular. A evasão continua alta.

As instituições de ensino superior já sentem a queda. Em 2009, a queda do número de alunos nos cursos presenciais foi de 11%. O sistema oferecia 2,8 milhões de vagas. Menos da metade foi preenchida.

Estatísticas não são dogmas e costumam ser manipuladas ao bel-prazer de quem acha que tudo vai mal e servem também para dizer que tudo vai bem.

Não procede assim o ministro da Educação. Comentando os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e os do Sistema de Avaliação de Educação Básica (Saeb), ele reconhece nas entrevistas que o Brasil permanece nos últimos lugares entre os 65 países avaliados, mas que foi o que mais melhorou na última década. No Pisa, o Brasil melhorou 33 pontos; o Chile, 37; e Luxemburgo, 38.

O que está acontecendo? De modo geral, o sistema de ensino básico e médio não vai bem. 

No Saeb, por exemplo, os avanços na aprendizagem de matemática foram de apenas 3,4 pontos, passando de 271,3 em 2005 para 374,7 em 2009.

Em língua portuguesa os avanços foram maiores. Passaram de 257,6 para 268,8, um crescimento de 11,2 pontos. Isso diz alguma coisa, mas talvez não o principal. Os mesmos exames constataram que as habilidades e competências dos alunos em língua portuguesa não aumentaram. Em resumo, leem e escrevem mal, muito aquém do esperado naquelas séries. Várias universidades estão oferecendo cursos de nivelamento aos ingressantes, do contrário eles não conseguem acompanhar as matérias. A ênfase desses cursos é em língua portuguesa e matemática.

Todos os que ensinam são testemunhas de que os docentes despendem recursos próprios para cópias, usando impressoras, cartuchos e papel comprados com o dinheiro de salários.

Cópias em papel vão aos poucos se transformando em retratos na parede. Elas substituíram as longas transcrições a giz no quadro-negro (depois o quadro tornou-se verde, mas predominou a antiga denominação). Mas também as cópias, nas escolas mais avançadas, estão aos poucos cedendo o lugar a computadores, notebooks e, mais recentemente, aos tablets. Registro como curiosidade que o tablet, conquanto eletrônico, é muito parecido, ao menos no tamanho, com a antiga lousa romana, não aquela afixada na parede, mas a outra, na qual os alunos escreviam. Designava também a lápide dos túmulos, onde eram escritos, ou melhor, inscritos, os epitáfios.

Há muitas décadas o Brasil não dá à educação os cuidados que ela faz por merecer na administração estratégica do país como nação. Que soberania é essa se não dominarmos bem a norma culta da língua portuguesa, a principal identidade que temos? Como vamos aprender as outras matérias? De que nos adiantará o computador para cálculos complexos se não sabemos as quatro operações básicas da matemática?

De nada adianta o sucessor dizer que o antecessor é quem fez pouco. É preciso que cada governo tome a tocha da educação, como nas olimpíadas, e prossiga. Que acharia o distinto público do ato de alguém que, ao receber a tocha, não prosseguisse no caminho e passasse a criticar quem a trouxe até ali? A tocha jamais chegaria a tempo para as cerimônias de abertura dos Jogos Olímpicos.

Em educação estamos atrasados. Embora haja manchas de excelência no país e avanços alcançados em muitas áreas sejam notáveis, o ensino vai mal onde jamais poderia estar mal, porque, como suas próprias designações o dizem, é básico e é médio, isto é, são etapas indispensáveis ao acesso ao ensino superior.