Barreira ideológica

Governo sírio tenta minar o acesso às redes sociais para evitar a divulgação de imagens e comentários

O governo da Síria está mantendo sob rédeas curtas o uso das redes sociais e da internet apenas três meses depois de permitir o livre acesso ao Facebook e ao Youtube. Agentes de segurança estão atuando de diversas formas, exigindo que os dissidentes entreguem as senhas de suas contas e cortando ocasionalmente o funcionamento da rede 3G de internet móvel. De acordo com ativistas do país, a população não está conseguindo colocar os vídeos dos confrontos online.

Alguns partidários do presidente Bashar Assad se autodenominam o Exército Eletrônico da Síria. Ao contrário do que foi visto no Egito, quando Hosni Mubarak tentou prejudicar a divulgação dos combates tirando toda a internet do ar, o governo sírio está tomando uma abordagem mais estratégica, desligando a eletricidade e os serviços telefônicos nos lugares mais movimentados. 

– Estão usando essa tática para minar a nossa comunicação. Pelo menos dois amigos meus já tiveram a página do Facebook invadida – conta Radwan Ziadeh, diretor do Centro de Estudos dos Direitos Humanos de Damasco.

Com as equipes internacionais de jornalistas barradas, a divulgação dos fatos ficou nas mãos dos dissidentes, que usam a internet para chamar a atenção da comunidade internacional para os brutais conflitos que já mataram mais de 700 pessoas e já causaram milhares de prisões nas últimas nove semanas. A página do Facebook  “A Revolução na Síria” tem mais de 180 mil membros, e tem sido uma importante fonte de informação para a população.

– Só conseguimos obter informações reais com os jornalistas locais. Sem eles, não saberíamos de nada – diz o ativista Ammar Abudlhamid.

Enquanto o Facebook se mostrou uma plataforma poderosa usada pelos ativistas para mobilizar a população e disponibilizar imagens e vídeos das revoluções na Tunísia, Egito e agora na Síria, ele também pode proporcionar um risco considerável para os dissidentes. Depois que o governo anunciou a suspensão da proibição de quatro anos do site, em fevereiro deste ano, o número de usuários subiu 105% e hoje existem cerca de 580 mil pessoas cadastradas na rede social no país.

Apesar de o governo afirmar que a decisão foi baseada na abertura e na liberdade, especialistas dos direitos humanos previnem que o governo pode usar o site para monitorar de perto as críticas feitas ao regime.

Um jovem de cerca de 20 anos, que não quis ser identificado, afirma que a polícia exigiu as senhas de suas redes sociais no final de abril, quando ele foi preso em um confronto. 

– Primeiramente eu disse que não tinha  Facebook ,mas depois de me socar, o homem disse que sabia que eu tinha, pois eles estavam vigiando meus “comentários maldosos” há tempos – lembra ele.

Ele cedeu suas senhas e ficou duas semanas na cadeia. Depois de ser solto, viu que haviam feito diversos comentários favoráveis ao regime em seu nome. 

– Eu imediatamente criei outra conta com um nome falso, assim como a maioria dos meus amigos .

Outro rapaz, de 30 anos, também afirma que teve que dar a senha de seu Facebook aos policiais. Ele desenvolve softwares e está trabalhando para ajudar um pequeno grupo a distribuir vídeos dos protestos aos jornalistas do resto do mundo. Ele diz ter se livrado da prisão recentemente porque já havia criado diversas contas falsas no Facebook, com outros nomes.

– Fui levado até a delegacia e eles pediram meu computador. Exigiram a senha e queriam que eu abrisse o site na frente deles. Aí eu abri uma conta falsa. Eles ficaram procurando por comentários contra o regime, mas não encontraram nada – descreve. 

Para ajudar a minar o sucesso dos rebeldes na internet, partidários do presidente Bashar Assad também criaram páginas no Facebook, Twitter e Youtube para disseminar mensagens de apoio ao governo sírio, além de usar páginas no mundo inteiro, incluindo as da Casa Branca e da apresentadora de televisão norte-americana Oprah Winfrey.

Além disso, o Exército Eletrônico da Síria está incentivando a boicote aos dissidentes. A página do grupo no Facebook – com 60 mil membros – foi desativada no início de maio por conter instruções detalhadas de como atacar pessoas pela internet, uma violação aos termos de serviço da rede social.