Sempre pode piorar

Clínica para dependentes químicos atende seu primeiro usuário de oxi no Rio

A apreensão de 18 pedras de uma droga ainda não identificada na terça-feira passada deixou o Rio de Janeiro em alerta. A perícia ainda não confirmou, mas tudo leva a crer que se trata da primeira apreensão de oxi no estado. 

No entanto, mesmo carente de registros oficiais, a nova droga já faz suas primeiras vítimas no Rio. Seus principais pontos de venda são a favela do Jacarezinho e a Mangueira (ambas na Zona Norte), onde a Polícia Militar fez uma série de operações no último fim de semana. 

– Fomos procurados por uma família  que tem um usuário de crack e oxi, foi nosso primeiro caso da droga – revela o psiquiatra Jorge Jaber, dono de uma clínica para tratamento de dependentes na Zona Oeste. – Pelo que sabemos dos usuários em tratamento, a chegada do oxi já é uma realidade no Rio de Janeiro.

Ainda de acordo com Jorge Jaber, o dependente teria adquirido a droga no Jacarezinho, onde fica a maior e mais antiga cracolândia  do Rio. 

– Ele é um usuário na faixa dos 20 anos, que tinha contato com álcool e crack havia algum tempo. Sua qualidade de vida já estava  seriamente comprometida. Estamos tentando localizá-lo, já que ele fugiu de casa. – explica o psiquiatra. – É o perfil mais comum dos usuários da nova droga, o oxi. 

Ao contrário da crença popular, o oxi tem ainda menos  cocaína que o crack, este já um rejeito da produção. Na verdade, é por ter pequenas quantidades de coca que o oxi vicia e degrada mais rapidamente. 

– O usuário precisa de várias doses para obter a sensação almejada – explica a diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Uerj (Nepad/Uerj), Ivone Ponczek. – São essas sucessivas tentativas de satisfazer o desejo que tornam o oxi tão perigoso. 

Além de ter menos cocaína do que o crack, o oxi usa compostos diferentes na queima da pasta base. No crack, é usado bicabornato de sódio e algum amoníaco. Já no oxi, os traficantes usam cal virgem e algum combustível, que pode ser desde querosene até água de bateria. 

– Alguns estudos dizem que o oxi causa a morte de até 30% dos usuários em menos de um ano, nunca por overdose – aponta a psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Cristina Saad. – O que mata são as substâncias deletérias da nova droga, e não a cocaína. 

Entre os componentes, o mais prejudicial seria o cal, responsável pela petrificação dos pulmões do usuário. 

– Além de petrificar, o cal destrói os alvéolos, que são estruturas responsáveis pela troca gasosa na respiração – explica o toxicólogo Carlos Alberto Tagliati, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Os efeitos do crack e do oxi são tão severos que dificilmente um usuário consegue abandonar o vício e não recair. Alterações de sono e fome, paranóias, psicoses, danos pulmonares e grave prejuízo cognitivo são apenas alguns dos danos. Por isso, hoje os usuários de crack são maioria nas clínicas especializadas. 

– Diria que 50% dos atendidos na minha clínica são usuários de crack. Em 2005, eram 2,5% – diz Jorge Jaber. – Juntos, eles superam o número de alcoólatras ou viciados em outras drogas e, em geral, só se recuperam com internação. 

O temor dos especialistas é  de que, em pouco tempo, a perigosa droga substitua o crack nas ruas. Mais barato, graças ao preço baixo dos seus componentes, e mais propenso a viciar seus usuários, ele pode se espalhar rapidamente, a exemplo do que aconteceu com o crack. 

– Há seis anos, eu tinha atendido apenas um usuário de crack na minha clínica – lembra o psiquiatra Jorge Jaber. – Hoje, eles já são maioria nos atendimentos. É difícil dizer que o oxi vai se espalhar tão rapidamente, mas ele tem tanto ou mais potencial do que o crack para fazê-lo. 

Também psiquiatra, Ivone Ponczek acha que o poder público não pode repetir o mesmo erro que cometeu em relação ao crack. Inicialmente vista como droga exclusiva de pessoas em situação de extrema pobreza, ela se espalhou rapidamente graças à falta de informação.

Apesar de já estar em ampla circulação há anos, apenas em 2011 o estado ganhou uma comissão de combate ao crack. 

– É necessário um grito de alerta sobre o oxi o mais rápido possível porque ele vai se espalhar tão rápido quanto o crack – avalia Ponczek. – Após décadas trabalhando no combate à dependência, digo que era feliz e não sabia antes do crack e do oxi entrarem em campo. Álcool, maconha e a própria cocaína não são nada perto deles. 

Preocupado com a chegada do crack nas classes mais altas e a chegada do oxi, Jaber vê poucas chances de mudança sem uma atuação governamental mais forte, não apenas no combate às drogas mas no tratamento dos dependentes.

– Nos Estados Unidos, o governo dá muito suporte para instituições que combatem a dependência – exemplifica o psiquiatra. – Aqui, existem poucas clínicas, e a saúde pública não está preparada para enfrentar o crack, quanto mais o oxi. 

Para polícia, ainda é difícil identificar a substância

A suposta apreensão de oxi  em Niterói só deve ser identificada com certeza no final do mês. A razão da demora, de acordo com diretor-geral do Departamento de Polícia Técnica, da Polícia Civil, Sérgio Henriques, é a falta de laboratórios em que se  possa analisar a nova substância. 

– Para a lei, já está comprovado que é entorpecente, porque foi identificada a presença de cocaína – explica Sérgio Henriques. – O trabalho que fazemos agora é de pesquisa. Temos informações de que o oxi contém cal virgem e permanganato de sódio, mas isso ainda está sendo verificado.

De acordo com a Polícia Civil, foram encontrados vestígios de querosene na droga apreendida.