Novidades de um velho conhecido

Debates revelam que a obra de Tchekhov, venerada pelos encenadores brasileiros e frequentemente encenada no Rio, continua provocando múltiplos olhares

Sem dúvida, os encenadores cariocas têm um carinho especial pelo  dramaturgo Anton Tchekhov (1860-1904) – o russo está entre os autores mais revisitados nos palcos da cidade através de suas quatro grandes peças (O jardim das cerejeiras, A gaivota, As três irmãs e Tio Vânia). Agora, sua vasta produção de contos e textos curtos, menos conhecida por boa parcela do público, é  também resgatada por meio de iniciativas como a do diretor Antonio Gilberto, que assina a montagem de dois textos  do autor, reunidos no monólogo A esposa e a noiva, em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana. Hoje, essa fascinação toda vai ser discutida no último encontro do ciclo de debates Tchekhov – Sua influência na literatura e no teatro do século 21,  às 18h30, também no Sesc. Organizado por Gilberto e Elena Vássina, o evento reúne os diretores Luiz Arthur Nunes e Enrique Diaz e a atriz  Luciana Fróes, a estrela de A esposa e a noiva.

Mesmo que  Tchekhov seja constantemente encenado, muitas vezes temas de sua obra não recebem   um  aprofundamento necessário. Considerado como um dos principais dramaturgos realistas, ao lado de Ibsen e Strindberg, Tchekhov não pode, porém, ficar reduzido a classificações.  

– Acho que classificá-lo como realista é reduzir sua genialidade – opina Antonio Gilberto. – Seus textos foram apontados por vários teóricos como “impressionistas”. Então, não podemos considerá-lo apenas como realista, apesar dele ter confessado interesse pelos acontecimentos da vida, que procurou “retratar” com simplicidade.

Para o diretor, não é difícil entender o porquê de os textos de Tchekhov continuarem  encenados ao longo do tempo.

–  O elo que une os contos com a obra dramática de Tchekhov é a consciência da transitoriedade da vida humana e o quanto as pessoas “aproveitam” mal as suas existências – identifica Gilberto, que recorda com especial carinho da montagem de Jorge Lavelli para A gaivota, em 1974. – Tanto nas peças quanto nos contos, Tchekhov nos alerta sobre isso. 

Luciana Fróes assume que, antes de ser convidada para participar de A esposa e a noiva, tinha pouco contato com a obra de Tchekhov. Aos poucos, a atriz começou a perceber quais são as principais questões que atravessam as obras do dramaturgo.

– Os personagens conversam, mas não se entendem – exemplifica. – Possuem diferentes visões de mundo.

Luciana detecta ainda pontos em comum entre A esposa e A noiva, contos que escolheu com Antonio Gilberto (o diretor segue investindo em trabalhos minimalistas). No primeiro conto, escrito em 1895, Nikolai descobre que a mulher, Olga, mantém um relacionamento extraconjugal com um jovem de Monte Carlo.

 No segundo, de 1903, vem à tona o processo de libertação de uma mulher, que cancela o casamento e se distancia de um formato de vida estável.

–  Interpreto uma mulher dominadora e outra que se revela capaz de romper com tudo e sair para o mundo – diz, acerca de duas personagens de personalidades fortes. – Durante o processo, lembrei de Natasha, a cunhada de As três irmãs, que vai tomando conta da casa. Mostra que quem consegue ocupar o espaço ganha. 

Já Luiz Arthur Nunes é um estudioso de Tchekhov, apesar de só ter encenado um texto do dramaturgo – O urso –  e como parte integrante de um espetáculo, Farsa. Não são poucos os pontos que o fascinam na obra do autor.

– Ele escreveu peças marcadas por intensa interação de grupo – menciona. – Os personagens falam por cima dos outros, gerando uma sensação de vitalidade. Além disso, desenvolveu a ação dramática sem dar a sensação de estar contando uma história. Mas ela está lá, bem construída.

Nunes também destaca a relevância do humor nas peças de Tchekhov, característica, inclusive, realçada pelo próprio autor.

– Encontramos um humor agridoce, mais do que propriamente comicidade – afirma.

Como espectador, assistiu a espetáculos marcantes a partir de peças de Tchekhov.

– Vi Tio Vânia com F. Murray Abraham; As três irmãs, com Vanessa, Lynn e Jemma Redgrave; e a mesma Vanessa em O jardim das cerejeiras – enumera. – Acabei de assistir, em São Paulo, a Espia uma mulher que se mata, versão de Daniel Veronese para Tio Vânia. E gostei bastante da encenação de Aderbal Freire-Filho para o mesmo texto.

Enrique Diaz teve experiências diferentes em suas duas direções de peças de Tchekhov – As três irmãs e Gaivota – Tema para um conto curto. A primeira surgiu como uma montagem de peça do autor, ainda que distante de uma abordagem convencional; a outra foi influenciada pela desconstrução empreendida por Diaz em Ensaio.Hamlet. Os dois trabalhos despontaram fora da Cia. dos Atores, grupo que dirige.

O encenador já tinha sido sondado para assinar um trabalho a partir de Tchekhov – a montagem de A gaivota (intitulada Da gaivota), com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres no elenco.

– Mas era muito novo e fiquei com medo – confessa. – Não tinha maturidade para lidar com atores com tanta história.

A peça acabou sendo conduzida por Daniela Thomas, mas Enrique Diaz estudou a fundo a obra de Tchekhov naquele momento e pode canalizar essa dedicação para trabalhos futuros. Vale lembrar que participou de Moscou (2009), filme de Eduardo Coutinho, dirigindo os atores do Grupo Galpão num processo em torno de As três irmãs, interrompido, conforme combinado, após três semanas de ensaio. 

– Foi um trabalho prazeroso – lembra. – Antes, cheguei a propor a eles uma outra peça, mas depois percebi que seria bom escolher um texto que já tivesse montado, como As três irmãs; e não haveria como repetir o que tinha feito.