A bordo da rebeldia

Rebeldes líbios usam embarcações para levar suprimentos e armas às cidades sitiadas

Passava da meia-noite quando a tripulação do rebocador Al Iradah 6 soltou as cordas do píer de Misrata, na Líbia, na última sexta-feira. O timoneiro – quem comanda o leme – deu a volta na baía e ganhou velocidade, seguindo em frente. Ali, a poucos metros  do costa, a embarcação estava fora do alcance da artilharia de Muammar Kadafi.

O destino era Benghazi, a capital rebelde da Líbia, a 480 quilômetros dali. A última etapa de uma improvável embarcação de contrabando estava chegando ao fim. Dentro de 24 horas, a Al Iradah 6 chegaria a um território controlado pelos rebeldes líbios, levando uma carga de remédios, comida e armas – combustível essencial para uma cidade sitiada.

As razões para o sucesso dos rebeldes em Misrata – que recentemente expulsaram as forças de Kadafi – são muitas. Uma delas é o uso dessas pequenas embarcações clandestinas, usadas como o único meio de transporte não passível – ou menos provável – de fiscalização do exército do governo.  

Os rebeldes juntaram cerca de 24 barcos de pesca e rebocadores em uma improvisada frota – que navega com o aval e o suporte da OTAN – responsável por levar a  Misrata os suprimentos necessários. Basicamente, as embarcações assumem missões tanto de paz quanto de guerra. A carga mista, de papinha de bebê a munições, ajudou na sobrevivência dos civis, além de equipar a cidade para os confrontos armados.  

A estratégia usada em Misrata, a terceira maior cidade do país, serviu de lição aos rebeldes a bordo do Al Iradah 6. Por meses, eles forneceram à oposição fortes argumentos pelo fim da guerra, propondo que o país, já historicamente divido por alianças tribais, fosse separado.

Esta foi a grande motivação dos marinheiros que se juntaram aos rebeldes. O capitão da Al Iradah 6, Saif Nasser, afirma que uma outra coisa o fez tomar a decisão: o senso de respeito e determinação, fruto da crescente revolta.

– Kadafi acha que o povo não é forte. Fomos prisioneiros por mais de 40 anos e ele nos tratava como animais. Mas agora ele descobriu a força que nós temos – defende Nasser.

A atitude desses marinheiros pode ser caracterizada como uma mistura de planejamento, segurança, paixão e energia. A embarcação Al Iradah 6, um rebocador de 85 pés, já foi parte da frota de Kadafi, e “conquistado” pelos rebeldes em março e usado para mostrar sua força e tentar fazer com que o ditador se afaste do poder. 

Depois de aportar, o capitão sumiu por um instante, para consultar as autoridades marítimas, já que este porto já fora bombardeado diversas vezes nas últimas semanas. Por razões de segurança, Nasser preferiu esperar anoitecer para retornar.

Ao sair do píer, pela manhã, Nasser fez contato com os navios da OTAN, pedindo permissão para passar pelo bloqueio. A passagem foi liberada por volta do meio-dia de domingo e a equipe aplaudiu a decisão da organização. 

– Se tivermos sorte, encontraremos mais embarcações da OTAN – diz Rashid Mansour, pouco antes de avistar um grande navio cinza, que enviou um helicóptero para checá-los.

A equipe acenou e fez um sinal de vitória, já que levar comida e remédios à população amedrontada, além de armas aos que se propõem a representá-los, requer mais do que marinheiros líbios e cobertura ocidental. É preciso dinheiro e organização. 

Esses esforços vêm de um centro de operações em Benghazi, onde são rastreadas as doações de suprimentos e o movimento dos barcos. Inicialmente, para aprender a evitar o bloqueio costeiro das tropas de Kadafi, os rebeldes pediram informações a grupos criminosos.

– Fizemos contato com quem traz drogas de outros países e eles nos ajudaram a aprender como movimentar as coisas pelos mares de Misrata – conta Alaadin Alsharkasy, um dos organizadores.

Mas a ajuda não foi mais necessária, uma vez que o grupo obteve o apoio da OTAN e a fiscalização dos navios de Kadafi ficou mais hesitante.