O medo está na praça

Assassinatos de três taxistas em apenas quatro dias revela a falta de segurança dos profissionais no Rio

Esta semana foi de terror para os taxistas do Rio de Janeiro. Entre domingo e quarta-feira, três motoristas foram mortos e um foi baleado em diferentes pontos da cidade. A série de incidentes mostra uma triste realidade, que é a completa vulnerabilidade dos profissionais da praça na cidade. 

O descaso do poder público com a categoria é evidenciado pela completa ausência de dados sobre crimes contra motoristas de táxi. Responsável pelas estatísticas criminais do estado, o Instituo de Segurança Pública (ISP) não tem qualquer informação sobre o tema. 

E não é preciso procurar muito para sentir a paranoia dos motoristas com a segurança. Contrariando a crença da maioria, nem durante o dia os motoristas se sentem seguros.

– Mesmo de dia, somos completamente vulneráveis. Não tem um vidro blindado de proteção, atenção da polícia, nada – reclama o taxista Francisco Lopes, de 29 anos. – Peguei um executivo com mala e blusa de linho no aeroporto, levei-o para São Gonçalo e fui assaltado. Ele ameaçou me matar várias vezes. A gente tenta evitar passageiros que pareçam suspeitos, mas às vezes não dá para distinguir.

Sem qualquer segurança nas ruas, os taxistas se consideram presas fáceis para os criminosos. Além dos costumeiros assaltos, muitas vezes eles são obrigados a fazer serviços para traficantes em favelas. 

–  Já fui obrigado por uma turma a levar um arsenal de armas para o Fumacê (favela da Zona Norte do Rio) – lembra Fábio Penha. – Teve escolta e tudo. Várias motos ficaram em torno do meu carro. Meu maior medo era de começar algum conflito com a polícia ou com outros bandidos e eu ficar no meio. 

Já Leonardo de Oliveira conseguiu se livrar, na base da conversa, de ter que transportar um corpo para um grupo de traficantes. Em outra ocasião, um ladrão que o assaltou quis executá-lo para não ter testemunhas, mas desistiu na última hora.

– Eles ia me matar por causa de R$ 200 – lembra Leonardo. – Essas UPPs foram muito boas para as favelas, mas agora os bandidos estão desesperados nas ruas atrás de dinheiro e quem sofre é a gente.

Diante de tanto medo, a prática de selecionar passageiros já se tornou normal para qualquer taxista. Além de se disfarçarem de executivos, outra prática comum dos bandidos é usar iscas para atrair taxistas. 

– Uma vez uma mulher com um bebê fez sinal para mim em Jacarepaguá e não desconfiei de nada. Quando parei o carro e olhei para trás, dois homens tinham entrado – lembra Luís Antônio. – Na hora eu já sabia que era um assalto, o sexto nos três anos que tenho de praça.

Mais visadas por serem supostamente mais frágeis, as mulheres taxistas também sofrem com as cantadas dos passageiros, além dos assaltos. 

– Comigo não tem essa, o último que mexeu comigo eu zuni para fora do carro e o engraçadinho ainda deu de queixo na calçada – conta Maria de Jesus, motorista de táxi há 23 anos.

 Apesar de não fazer jus ao conceito de sexo frágil, ela reconhece que seus companheiros vivem em constante situação de risco. 

– Já tive que expulsar viciado do meu carro e fugir de bandido. Qualquer um pode sentar aqui e colocar uma arma na minha nuca.

Revoltados com a própria exposição, os taxistas reclamam do descaso do poder público com a profissão. Para Gilberto Júnior, o Brasil deveria se espelhar em exemplos do exterior. 

– Deveríamos ter o menor contato com o passageiro possível, de preferência nenhum – ressalta. – Nos Estados Unidos, os táxis são obrigados a ter vidros blindados que  separam os passageiros e, na Inglaterra, táxis são padronizados. Nos dois casos, as adaptações foram subsidiadas pelos governos. 

Já Leonardo de Oliveira diz que quase todos os taxistas concordam que ser parado por uma blitz os deixaria mais seguros. 

– Quando é carro novo e com cara de regular, eles não param de jeito nenhum – reclama. – Ser parado numa blitz é a chance que o motorista tem de chamar a polícia num caso de assalto, mas eles ignoram a gente. 

No Brasil há vários exemplos de leis simples que tranquilizam bastante o cotidiano dos taxistas. Em Porto Alegre, os motoristas precisam parar em postos da Polícia Rodoviária antes de levar passageiros para outros municípios e os policiais guardam os dados dos passageiros e do próprio taxista para segurança de ambos. Já em Caxias do Sul, também no Rio Grande do Sul, uma lei obriga os táxis da região a terem uma cabine blindada para os motoristas. 

– Eu não levo ninguém para fora do Rio, nem para Niterói. Se pedirem Caxias, nem pensar – admite Djalma Borges, que se gaba de nunca ter sido assaltado após décadas nas ruas. – Essas idas para outras cidades são as prediletas dos bandidos. 

Outra sugestão dos taxistas é o uso de luzes de emergência que indicariam possíveis assaltos para policiais e também serviriam para mostrar aos passageiros se o veículo está ocupado ou não. 

A tecnologia já existe e está registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (patente MU8900871-5U2), mas nunca foi utilizada. 

Deputado reconhece falta de segurança dos taxistas

Presidente da Comissão de Transporte da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, o deputado estadual Marcelo Simão (PSB) reconhece que o poder público não tem dado a atenção devida aos taxistas.

– A Comissão de Transporte, por exemplo, trata mais de problemas relativos à falta de segurança em transportes públicos de massa, não nos particulares – explica o deputado.

Além de prometer analisar as sugestões para tentar fazer projetos semelhantes no Rio de Janeiro, Simão lembrou que a pressão pública é essencial. 

– A estação de metrô da Gávea foi conquistada no grito durante a elaboração da linha que liga a Zona Sul à Barra da Tijuca. A gente sabe como é, político só age sob pressão – diz deputado. – Há ideias simples que podem fazer a diferença. Vou analisar esta matéria do Jornal do Brasil para ficar a par das sugestões.