Crítica | Caminho da liberdade | Programa obrigatório

É custoso acreditar que considerável parte das plateias brasileiras vá se despencar até o cinema mais próximo para apreciar um grupo de prisioneiros de guerra que escapa de um gulag na Sibéria, passando pelo deserto de Gobi, pelo Tibet e pelo Himalaia para, enfim, encontrar repouso na Índia. Não se trata de uma corrida maluca, mas de um tremendo desafio cinematográfico. Vale a pena? Digamos que, pelas credenciais que carrega, O caminho da liberdade, para alguns, é programa obrigatório. Para a maioria, é uma valiosa oportunidade de lembrar como se faz cinema.

Há oito anos sem filmar, o diretor australiano Peter Weir (66 anos de idade; 36 de carreira; 13 filmes) não se vende barato aos apelos comerciais e filma como convém: calma e precisamente, seja na estranha beleza de Piquenique na montanha misteriosa, no lirismo rebelde de Sociedade dos poetas mortos ou nos portentosos O show de Truman e Mestre dos mares: O lado mais distante do mundo. Se isso é possível, faz pacientemente um cinema grandioso, de fotografia exuberante, com a calma de quem tece um tapete. Cada detalhe conta e, pode apostar, estará na tela.

Visualmente esplêndido, O caminho da liberdade tenta, no roteiro do próprio Weir e de Keith Clarke, responder a uma pergunta óbvia: como esse grupo conseguiu escapulir da Sibéria em direção à Índia, sobrevivendo a uma maratona de dar inveja em triatleta? As respostas oferecidas pela principal fonte do roteiro, o livro de Slavomir Rawicz, identificado como um dos sobreviventes, não eram conclusivas. Weir e Clarke buscam a verdade além, investigando a vida dos personagens num tipo de filme que jamais pode ser dado como condenado. Sempre haverá espaço para a tal jornada do herói. E ela deve ser grandiosa.