Maria Clara Bingemer: As mulheres e o rabi de Nazaré

Qual o segredo daquele homem para que exercesse tal atração sobre as mulheres?  O que, nele, lhes chamava a atenção de forma que elas, ao encontrá-lo, mudavam radicalmente de vida e passavam a segui-lo por toda parte com ardor e paixão?  Qual o segredo da sedução que sobre elas exercia a ponto de chamar a atenção de todos à sua volta e sua relação com elas destacar-se com indiscutível clareza ao longo de todos os quatro Evangelhos?  Em um contexto patriarcal como era o seu, como aquelas mulheres se atreveram a sair do anonimato, do confinamento na esfera do privado para ganhar a esfera pública, as estradas, ruas e caminhos, a fim de seguir o filho do carpinteiro fazedor de milagres e sedutor das multidões? 

No mês de maio – mês das mães, das noivas, de Maria, da mulher, enfim – parece oportuno refletir sobre a mulher.  E hoje nosso assunto é a relação da mulher com Jesus, o rabi de Nazaré. 

Um olhar para os Evangelhos pode levar-nos a vislumbrar um homem que viveu uma especial Aliança e sintonia com as mulheres de seu tempo, que fundou uma comunidade e inaugurou um estilo de vida onde elas eram bem-vindas e tinham seu lugar.O que nos é dado conhecer do Jesus histórico através dos relatos evangélicos o mostra como o iniciador de um movimento itinerante carismático, onde homens e mulheres são admitidos em relações de fraterna amizade.  

Diferente do movimento de João Batista, com marcado acento sobre a ascese e a penitência, diferente também de Qumrân, onde só os homens são admitidos, o movimento que  Jesus instaura se caracteriza pela alegria, a participação sem preconceitos em festas e refeições às quais são admitidos pecadores e marginalizados em geral, e pela ruptura com uma série de tabus que caracterizavam a sociedade de seu tempo.

Dentre essas rupturas, certamente uma das mais evidentes é aquela que o extraordinário Rabi faz em sua relação com a mulher.  Sua prática com elas, situada em um contexto patriarcal mostra-se não só  inovadora, chega a ser chocante.  Apesar de não haver deixado nenhum ensinamento formal  com respeito ao problema, a atitude de Jesus para com as mulheres é tão insólita que chega a surpreender até os mesmos discípulos ( Jo 4,27).

É comum aos quatro evangelhos o fato de que as mulheres formam parte da assembleia do Reino convocada por Jesus, na qual não são simples componentes acidentais, mas ativas, participantes e beneficiárias privilegiadas de seus milagres.

Em poucas palavras: Jesus confia nas mulheres.  Não as teme como portadoras de tentação e perigosa sensualidade.  Não se perturba em sua presença com a atitude arrogante e discriminadora de muitos profissionais da religião de seu tempo, que veem sempre na mulher um perigo a evitar e um demônio a exorcizar.  Pelo contrário, as acolhe, ensina-lhes os segredos do seu coração, derrama sobre elas seu carinho que cura o corpo e a alma.  E lhes confia uma missão, mesmo a mais importante, que é a de anunciar aos discípulos a boa nova da Ressurreição em primeira mão. 

A revolucionária e inovadora maneira com que Jesus tratava as mulheres vem a ser, portanto, perfeitamente coerente com o Evangelho no que ele tem de mais essencial:  a Boa Nova anunciada aos pobres libertos em prioridade por Jesus: os deserdados, os rejeitados, os pagãos, os pecadores e os marginalizados de toda sorte, entre os quais se incluem as mulheres e as crianças, não consideradas pela sociedade como importantes e válidos em termos de cidadania civil e religiosa.  A todos estes, Jesus os faz destinatários privilegiados de seu Reino, integrando-os plenamente na comunidade de filhos de Deus, porque com seu olhar divino, informado constantemente pelos movimentos do Espírito e pela relação filial com o Pai, sabe discernir em todos estes pobres – nos quais está incluída a mulher – valores ignorados: “a vida preciosa do caniço pisoteado ou o fogo não extinto da mecha que ainda fumega.“

Através dessas discípulas, começou o movimento que dividiu a história em dois e configurou a cultura e a civilização de toda uma parte do mundo.  A aliança das mulheres com o Mestre de Nazaré foi e continua sendo poderosa fonte de vida, e vida em abundância para todos. 

Maria Clara Bingemer é autora de Deus amor: graça que habita em nós (Paulinas), entre outros livros.