Heloisa Tolipan

Encantados por Fred  

Pela janela do quarto, um dia já se construiu ideias de mundo. O outro morava ao lado, a segurança era o guardinha da pracinha e o resto do mundo era visto apenas por sonhos ou imagens paradas de fotografia em preto e branco . Mas, com a mesma nitidez dos olhos cansados por excesso de leitura e falta de óculos adequados para cada caso, o tempo  passou e trouxe consigo uma caixa-preta com promessas de mostrar um pouco mais além. O nome já tinha o ato de ver embutido em si: televisão.  A imagem das telas começam a valer mais do que as mil palavras escutadas pelas ruas ou pelo rádio. Ou vai negar? De fato, a eleição americana de 1960, que mudou seus rumos com a aparição do presidente vivaz e simpático John Kennedy, caminha a favor de nossa tese. O colorido chega, o tempo corre, os formatos das telas variam na análise combinatória precisa para caber em cada espaço de vida: no bolso, na bolsa, na rua.  Um susto desejável e a surpresa diante do limite tênue entre um aquário real e a TV de alta definição. A nova concepção de janelas ganha molduras cada vez mais finas, pretas, um quadro que lhe convida a (quase) participar... de quê mesmo? Sentados na poltrona, uma escolha de ilusão em um controle remoto proporciona a qualquer um a sensação da moça feia da canção de Chico Buarque, que debruça em sua janela ao achar que a banda passa só para ela.  Até que, no mês passado, o início da noite ganhou um novo  traço de quem não se preocupa em mostrar a vida como ela é.  A opção de viver os velhos tempos de contos de fadas, reis, mocinhas, bandidos vestidos de preto e, por alguns instantes, o conforto do fantástico. O Cordel Encantado e ilustrado pelas imagens harmônicas de Fred Rangel, responsável pela bela fotografia da novela global das 18h. Novo e moderno menino dos seus e nossos olhos, que recebeu nossa equipe para um bate-papo. Ah, claro, de janelas bem abertas... 

Qual a diferença entre o trabalho com fotografias estáticas e aquelas em movimento, como de filmes e TV’s?

— Na fotografia Still, o fotógrafo eterniza em fração de segundos um momento, um fato, e isso representa o ápice da ação. É um instante que exprime a essência de um acontecimento. Já a fotografia em movimento, uma evolução da fotografia em Still, o fotógrafo consegue expressar um fato, uma imagem ficcional, uma narrativa, e transformá-la em imagens com muitas variações, inclusive, com início, meio e fim.

Acredita que a alta definição influenciou no trabalho dos profissionais em busca de uma imagem melhor ou, apenas, possibilitou a mostra clara de um trabalho de excelência, já anteriormente desenvolvido?

— As duas coisas. Na verdade, o que buscamos na TV é a simbiose entre a qualidade mostrada no cinema com a velocidade empregada pela TV.  A alta definição nos proporciona essa possibilidade de estreitar essa diferença.  Na TV, tivemos de aprimorar nossas qualidades, nos acabamentos cenográficos, caracterização e figurinos.  E a luz é fator primordial nessa evolução, uma vez que, com definição abundante, temos de ter mais cuidado em fotografar, principalmente porque imprimimos muito mais os detalhes de uma face.

Há diferença na fotografia de uma história de época, como de Cordel Encantando, em relação às demais?

— Cordel Encantado é uma novela atemporal, não estamos presos a uma época específica, temos mais liberdade na criação.  Mas a fotografia é trabalhosa, a maioria das cidades não tem luz elétrica, temos de criar ambientes iluminados por tochas, velas e lampiões. O trabalho, em conjunto com o figurino, busca sempre uma paleta de cores em tons pastéis. A arquitetura dos ambientes com muita madeira e tons fechados das paredes também é primordial para atingirmos essa atmosfera.

E, para você, o que os olhos não veem que a lente de uma câmera pode capturar?

— Na teledramaturgia, a narrativa é que faz a diferença. Criar uma atmosfera de seleção, usar bem as lentes forçando o foco seletivo, focando apenas o mais importante.  Enquadramentos bem elaborados: essa é a magia que encanta há tantos anos. O público se envolve e, de alguma forma, percebe tudo isso. No universo dos documentários, é diferente. O trabalho que mais me marcou foi  A morte dos índios Guajajaras: pude resumir por meio das lentes o sofrimento da perda da identidade indígena, em um plano sequência de apenas um minuto e meio.  Na verdade, a sensibilidade e o olhar humano têm a capacidade de enxergar muito mais que as lentes de uma câmera.

Uma fábula que nunca termina

Jessica Biel como Pocahontas; Jennifer Lopez e Marc Anthony como Jasmine e Aladin; Whoopi Goldberg como o Gênio; Tina Fey como Sininho;  Gisele Bündchen e Mikhail Baryshnikov como Wendy e Peter Pan. A lista de celebridades clicadas pela ilustre Annie Leibovitz para as campanhas dos parques temáticos da Disney já é extensa. E, neste mês de maio, pode incluir mais dois nomes neste rol: Queen Latifah, encarnando a vilã Ursula de A pequena sereia, e, surpreendentemente, a cantora Patti Smith, como parceira de embarcação do pirata do caribe Jack Sparrow (Johnny Depp). Pois é, até a poetisa do punk se rendeu à magia do mainstream. Quem somos nós para resistir?