PSD muda o Congresso

Parlamentares de várias siglas se engajaram na nova legenda, mas admitem falta de ideologia e relutam em assumir posição contra ou a favor do governo

O recém lançado Partido Social Democrático (PSD), em vias de formalização, poderá ter a quarta maior bancada da Câmara. São 40 deputados e dois senadores das mais diferentes siglas que já anunciaram o ingresso na nova legenda. Otimistas, os que participam da criação do partido acreditam que nos próximos dias contarão com 50 deputados federais. A expectativa pé no chão é de que se torne a quarta maior bancada da Câmara. Mas, apesar da envergadura, o PSD reluta em definir seu campo de atuação. 

Pelo que tem dito o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, mentor do PSD, há forte tendência de alinhamento com o governo. No entanto, isso esta está longe de ser uma unanimidade entre os membros do novo partido. 

O chamado baixo clero, grupo de parlamentares conhecido por ter pouca ou nenhuma expressão no Congresso, forma a maioria dos detentores de mandato que decidiram partir para a nova empreitada. Eles não negam que essa é uma forma de alcançarem maior expressão na mídia e nas bases sem ter que abrir mão dos cargos que ocupam.

De longe, o principal prejudicado com a criação do PSD é o DEM. Dos 43 deputados federais do partido, 11 assinaram a ata de criação pessedista. Mesmo assim, membros da sigla não acreditam que este seja o fim. Líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO) garante que 30 deputados é um “número expressivo”. 

Na opinião dele, é preciso se aproximar do “eleitorado liberal” e com perfil conservador. E acredita que o melhor a fazer é deixar partir os que não se sentem satisfeitos no DEM.

– Precisamos excomungar a possibilidade de fusão com outro partido. Precisamos de uma plataforma própria e nos comportarmos como um partido de idéias e público claros – defende Demóstenes.

Sondado para ingressar na legenda, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que após as  eleições foi alvo de especulações de que fundaria um novo partido, descarta qualquer possibilidade de deixar o PSDB. Mas, de olho nas eleições de 2014, ele trabalha no sentido de tentar uma aproximação com a nova legenda. 

Em boa hora

Os membros do partido não negam que a criação de nova agremiação veio em boa hora para quem queria mudar, mas estava preso pelo mandato. Por isso mesmo, não veem óbices em seguir para um partido sem ideologia definida. O PSD deixará para decidir sua identidade depois de passadas as primeiras disputas eleitorais. 

Enquanto isso, o partido terá uma postura independente. Cada parlamentar poderá votar de acordo com suas convicções – novas ou antigas. No Congresso, o nome mais forte a ingressar na legenda é a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), cotada para assumir a presidência nacional do partido.

Segundo senador a anunciar o ingresso no PSD, Sérgio Petecão (PMN-AC) classifica o novo partido como “uma espécie de janela para os parlamentares fazerem a última acomodação”.

– Uma mudança de partido pode significar a sobrevivência política – resume.

O tocantinense César Halum (PPS) avalia que o “PSD aparece num momento em que muitas pessoas estavam à procura de uma alternativa que cumprisse a legislação eleitoral”.

– O PSD funciona como um ponto de convergência e motivações das mais diversas. A maioria dos partidos não tem vida orgânica e nem como se adaptar. Os mais antigos teriam que romper com sua ideologia – argumenta o deputado Arolde de Oliveira (DEM-RJ). – Como será um partido grande, não haverá baixo clero. Todos os políticos participarão. O processo é lento, o nível de incerteza é alto, mas isso não é uma ruptura.

Para o parlamentar, o contexto histórico permite que a ideologia fique em segundo plano, pois os conceitos de direita e esquerda foram ultrapassados. Ele acredita que nas eleições municipais do próximo ano o partido já tenha decidido sua postura. 

O deputado paranaense Eduardo Sciarra (DEM), no entanto, avalia que não haverá tempo hábil para que o partido tenha decidido sua posição política até 2012. Mas garante que ele não será integrante da base aliada do governo.

– O partido terá nesse primeiro momento justamente pessoas que há sete meses apoiaram Marina Silva (PV) ou José Serra (PSDB). Estamos visando a unidade em 2014. Mas o partido não será base, terá pessoas na oposição e outros apoiando o governo.

Tanto faz

Líder do PSDB no Senado, o paranaense Alvaro Dias admite que numericamente não é possível competir com o novo partido. Ele disse que, caso o ninho tucano venha a sofrer baixas, o resultado final dificilmente será alterado.

– O resultado das votações já tem sido a acachapante. A oposição tem que substituir a questão da quantidade por uma atuação de qualidade – observa Dias.

Uma das possibilidades levantadas é que o DEM possa se fundir ao PSDB. Ideia a que o senador se mostra um pouco resistente. 

– Não podemos raciocinar só eleitoralmente. É uma questão a ser amadurecida com calma, que tem algumas especulações mas nada organizado – pondera.

Negociações

O recém-criado partido estava em franca negociação para se fundir com o PSB. A ideia, no entanto, foi deixada de lado após os membros do PSD perceberem o número de adesões conseguidas. 

Para ser formalmente criado, é preciso a adesão de 500 mil pessoas distribuídas nos estados. A expectativa é que o número seja alcançado ainda no primeiro semestre de 2011. O prazo viabiliza a participação do PSD nas eleições municipais de 2012. Futuros candidatos devem estar filiados a um partido político  pelo menos um ano antes das eleições.