Luiz Orlando Carneiro: A arte do improvisador

Talvez por ter se dedicado à arte da improvisação de um modo assumidamente exploratório e intelectual – tanto no ambiente acústico como no eletrônico – o pianista Matthew Shipp chegou aos 50 anos, em dezembro último, sem ter merecido o devido reconhecimento, como intérprete e compositor, no mesmo nível de excelência dos bem mais moços Jason Moran e Vijay Iyer. Basta lembrar que no mais recente referendo anual dos críticos promovido pela Downbeat (2009–10), ele não foi citado na categoria dos pianistas, enquanto Moran teve tantos votos quanto Brad Mehldau e Hank Jones (1918–2010), atrás apenas do invencível Keith Jarrett e de Kenny Barron. Iyer foi o sétimo mais votado, logo depois de Herbie Hancock. 

Mas a crítica especializada parece ter acordado, de repente, para aplaudir uma espécie de suma da obra madura de Matthew Shipp, contida em três discos gravados entre abril e outubro do ano passado, e que acabam de ser lançados. Art of the improviser (Thirsty Ear) é um álbum duplo em trio (cinco faixas de um concerto, em abril, no Arts Center of the Capital Region, Troy, Nova York) e solo (seis faixas de uma apresentação, em junho, no clube Poisson Rouge, no Village, New York City); Cosmic Lieder (AUM Fidelity) é um duo com o jovem sax alto underground Darius Jones, que se desenvolve por sobre 13 pequenas peças, a maioria em torno de três minutos.

Apesar do título, Art of the improviser – sobretudo o volume solo – documenta a arte de um exímio pianista que parece compor enquanto improvisa (ou vice-versa), numa linha semelhante à das divagações de Jarrett e de Mehldau. Nesse sentido, a arte de Shipp ecoa a concepção do também erudito mestre do teclado Anthony Davis, que já dizia a propósito de suas obras gravadas, na década de 80, para o selo India Navigation: “A maior parte de minha música é composta-escrita. Acho que a improvisação é uma ferramenta composicional dentro da moldura de uma determinada peça”. 

O grande Andrew Hill (1931-2007) é também uma influência perceptível, como se pode ouvir em 4D (5m35) e Wholetone (8m), do volume 2 (solo); e na “desconstrução” de Take the “A” train (7m40) e em 3 in 1 (9m12), do volume 1 (em trio com Michael Bisio, baixo; Whit Dickey, bateria). 

O álbum Cosmic lieder, por sua vez, não é composto por temas amenos, como parece indicar o título, já que a palavra Lieder (com o “l” maiúsculo dos substantivos em alemão) é plural de Lied (canção, cantiga). Nas 13 faixas do CD – que variam entre 2m17 (Black nightning) e 4m05 (Ultima Thule) – o duo Matthew Shipp–Darius Jones cria, dentro da moldura composicional, uma tensa e free interação improvisacional. Essa interação – que lembra o consórcio Vijay Iyer (piano) – Rudresh Mahanthappa – pode ser mais contemplativa, como nas três primeiras faixas (Blend, Ultima Thule e Zillo Valla), ou decididamente vertiginosa, com o uso das cordas do piano ou de efeitos multifônicos do sax (Multiverse, Mandrakk, Motherboxx, Blach lightining). 

A propósito, este CD é um dos cinco indicados para a categoria Disco do Ano, na premiação da Jazz Journalists Association, a ser divulgada em junho. Os outros são: Apex (Pi), Rudresh Mahanthappa e Bunky Green; Bird songs (Blue Note), Joe Lovano; Ten (BN), Jason Moran; Mirror (ECM), Charles Lloyd.