Heloisa Tolipan

Geração Villa-Lobos

O sobrenome não nega que se trata de um grande mestre das curvas musicais: Villa - Lobos. A genética pode pesar, de fato. O menino Dado, nascido naquele junho de 65, em Bruxelas, seguiria os passos do tio-avô Heitor Villa-Lobos, eternizado por levar nossa música clássica ao mundo? Bom, parentescos e tais partituras à parte, o som escolhido pelo jovem Dado foi mais afinado com  acordes daguitarra elétrica que marcara sua expressão nas curvas de uma Brasília que seguia rumo  à maturidade. Depois de tanto rodar por algumas bandas da capital, em 1983, ao lado dos outros dois componentes, integra-se ao Legião Urbana,  e resolve buscar pelas estradas do Brasil  a resposta  para a identidade nacional: que país seria esse, o qual Dado Villa-Lobos encontrou e resgatou? Aniversários correm e vários discos da banda encontram um lar embaixo dos braços daqueles que poderiam não saber a tabuada de cor, mas os nove minutos da canção Faroeste Caboclo estavam na ponta da língua. Até que, em 1996, o vocalista Renato Russo deixa a vida e a Legião começa a fazer parte, apenas, da história de nossa música. Dado, então, segue no caminho de traçar a trilha de muitas narrativas na ficção, como nas músicas feitas para os longas O Homem do Ano e Malu de bicicleta e para o seriado Mandrake, no HBO. Sem perder a ternura jamais, agora está em estúdio para o seu segundo CD solo  O passo do colapso (e as músicas aleatórias), que será lançado ainda este ano. Aliás, ele também lecionará, no POP, a partir do dia 18, a oficina Produção musical para cinema. Tem como perder? Por isso, claro, batemos um papo com o mestre em pessoa...

Como é o seu  processo de preparação para compor  a trilha sonora de um filme?

— É um processo delicado: leio o roteiro, entendo os personagens e converso com o diretor. Depois, começo meu procedimento interno e intuitivo. É uma imersão na história. A partir do momento em que estou embebido naquilo, tudo que  penso ou vivo me remete a este assunto. 

Qual a mensagem que a canção consegue passar em uma narrativa em que o diálogo se torna incapaz?

— A música dá um suporte emocional para a cena. Induz a determinado tipo de emoção que a história pede e que o diretor entende que deve haver. É uma forma de sublinhar sensações. 

E na narrativa da vida?

— É incrível como a música está presente no dia-a-dia de todos. Hoje, você anda na rua e é difícil encontrar alguém que não esteja  ligado a um rádio ou a um MP3. É uma forma de relacionar o som com o que você está vendo e com o universo a seu redor.  

Você também fez parte da trilha sonora de uma geração, com o Legião Urbana. Como foi a experiência de dar som a esse coro?

— Éramos jovens e, como toda banda jovem, achávamos que íamos mudar o mundo. Principalmente, quando é uma banda de rock, que tem uma pegada destrutiva e construtiva ao mesmo tempo . Fomos traçando o nosso caminho e vendo nosso sonho se tornar realidade. A música me transformou e me transforma sempre e, desde muito cedo, nós, da banda, tínhamos consciência da relevância das canções na formação do caráter das pessoas.

Teria um palpite sobre a trilha sonora do Brasil de hoje?

— A trilha sonora do Brasil, hoje, é plural e diversa, mas ainda está faltando um canal para que as pessoas acessem a variedade com mais facilidade. Na indústria da música, prevalece um  popular exacerbado, ainda que, inegavelmente, seja segmentada. Entender a forma pela qual a música vai transformar a vida está um pouco difícil, ainda que já consiga ver sinais de evolução para isso tudo. 

Em sua  carreira solo atual, o que ainda leva do Legião Urbana  e o que traz de um Dado mais maduro?

— Acredito que a bagagem de minha  adolescência ainda seja muito presente. É um acúmulo de ideias sobre formas e modelos que se digere ao longo do processo de maturidade, só que minha  essência está ali, sempre para questionar o porquê de se fazer música, para quê e para quem. Procuro sempre buscar essas respostas  e, quando chegam, têm de me emocionar.

A origem do sucesso

Um filme sendo exibido no mais charmoso dos festivais, o de Cannes. Sonho para muitos cineastas brasileiros já consagrados, mas realidade na vida de um jovem estudante de Comunicação Social da UFRJ.“Ficou bonito o currículo”, comenta, gaiato, Guilherme Ferraz, 21 anos, que, ao lado de três amigas (duas brasileiras e uma romena), terá seu nome transformado em crédito ao fim da exibição do curta La Fille de Dibutades (A Filha de Dibutades, em português) no Short Film Corner, mostra não-competitiva de curtas-metragens dentro do Festival de Cannes, junto a filmes do mundo inteiro. “Estava cursando intercâmbio em Sourbonne e este era apenas mais um trabalho realizado para a faculdade. Então, duas meninas da equipe o inscreveram. Do nada, soube da notícia sobre a seleção”, conta o roteirista do filme, que, na verdade, não pensava em seguir o caminho da escrita cinematográfica. “Meu foco sempre foi a direção, nunca pensei que tivesse jeito como roteirista, mas se Cannes pensou o contrário...”. O curta em questão é uma reflexão sobre a relação entre imagem e morte, a partir do mito grego da origem da pintura. “Pode parecer complexo na sinopse, mas o filme não é muito narrativo, é quase um ensaio sobre o assunto”, diz o rapaz, cuja meta atual é terminar o curso de Rádio e TV. Projetos de mais curtas, médias ou longas? “Estou desenvolvendo tudo em minha mente, por enquanto”. Estamos no aguardo, Gui.